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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Woman - Mulher (um documentário)

04.10.20, Almerinda

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WOMAN - MULHER

Yann Arthur-Bertrand e Anastasia Mikova fizeram um trabalho notável. Ao longo de dois anos e meio percorreram mais de 50 países e entrevistaram duas mil mulheres. Ouviram-nas, filmaram-nas e fizeram um documentário que é um livro aberto sobre a situação das mulheres. Sem efeitos especiais, sem demagogia, de forma imparcial, puseram aquelas mulheres a olhar-nos olhos nos olhos e a falar de si, das suas vidas, dos seus dramas, mas também das suas alegrias. Da sua luta, resiliência, coragem, força. Impossível ficar indiferente.

Nem sempre são precisas palavras. Às vezes, bastam os olhos, os sorrisos, os silêncios, os corpos que se desnudam. Mas o grito que sai daquele documentário é que é preciso acabar com o silêncio, com a indiferença social para com a discriminação que as mulheres sofrem.

O tráfico sexual ou a violação tanto podem ser obra do DAESH, como dos próprios pais. Os casamentos forçados ou as mulheres que foram queimadas com ácido foram-no dentro da família. A violência doméstica ou a excisão genital são toleradas e praticadas no seio da família e da comunidade. Todas aquelas mulheres que testemunharam foram sobreviventes, mas a que custo? Que sequelas permanecerão ao longo da vida?

A nossa sororidade está com as que sofrem e também se regozija com as vitórias e com as alegrias delas. A afro-americana que diz que a maior alegria que teve foi no dia em que subiu ao palco com a família para receber o seu diploma universitário; a partir daquele dia decidiu que nunca mais iria escrever à máquina. A satisfação daquela rapariga no dia em que recebeu o primeiro cartão bancário com o seu nome. A ministra de um país africano que, quebrando tabus e incompreensões, persistiu e conseguiu que agora já tenha a companhia de mais três mulheres no conselho de ministros do seu país.

Os testemunhos relacionados com a sexualidade e com o corpo são de grande diversidade e riqueza neste documentário exibido na RTP2. Elas falam do amor, da primeira menstruação, do sexo, do prazer, dos orgasmos, da maternidade, da contracepção, do direito a decidir. Heterossexuais, lésbicas, bissexuais, profissionais do sexo, jovens ou menos jovens falam com naturalidade das carícias, da descoberta do corpo e do potencial que um relacionamento erótico pode contribuir para o equilíbrio pessoal.

Os corpos transformam-se com a velhice. A gordura, a magreza, as rugas, as imperfeições, as cicatrizes depois das mastectomias esbarram com o ideal de beleza estereotipado que a indústria da moda e da cosmética querem vender. Ensinadas a funcionar em função dos outros, anulando-se, amando os outros e esquecendo-se de si próprias, há que mudar este paradigma, que passa pelo reforço da auto-estima e do amor-próprio.

A valorização pessoal surge também no documentário, ligado à escolarização e à educação, tendo aberto às mulheres muitas actividades, antes exclusivamente exercidas por homens. Contudo, a maternidade e o ser-se mulher continuam na sociedade actual a ser barreiras na carreira profissional e na emancipação económica e social de tantas mulheres.  

O documentário é de enorme beleza plástica e expressividade, sendo extremamente eficaz na comunicação e na mensagem em prol da valorização das mulheres, do respeito que elas merecem e do muito caminho que há a percorrer para que a sociedade assuma que as mulheres querem ocupar o espaço que é delas e que não vão deixar de o fazer.

2 comentários

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    Almerinda

    05.10.20

    Sim é um documentário duma beleza e sobriedade indescritíveis. Obrigada, Fernandinha
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