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Lendo e escrevendo

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Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, Julieta Monginho

13.06.22, Almerinda

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Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, Julieta Monginho, 2021

O terceiro livro que leio da autora e sempre a surpreender-me. O Rijksmuseum em Amsterdão que nunca visitei é central neste romance. Aliás, desta cidade, apenas conheci o aeroporto e o seu parque exterior com milhares de bicicletas estacionadas. Para me/nos orientar neste museu e nos seus quadros, em apêndice no final do livro, a autora faz-lhes uma referência. Tal como fiz em “O Nervo Ótico” de Maria Gaínza, procurei-os no Google e assim fiz uma “viagem” à distância, com toda a diferença que é estar na presença das obras.

Este livro é também uma viagem no espaço e no tempo em torno de várias personagens que ora vivem juntas, ora se afastam, que brigam, se reconciliam, que estão permanentemente em fuga, ou querem empreender uma fuga que lhes permita viver em harmonia. Este livro é um puzzle, uma construção de um lego que nos permite seguir pistas, para não nos perdermos. E se de vez em quando precisarmos de voltar atrás para encontrar os detalhes, as pedras, as chaves para abrir as portas deste dilúvio, o importante é que no fim compreendamos que, quaisquer que sejam as dificuldades da vida e do mundo que nos rodeia, o nosso movimento é sempre para nos salvarmos, para alcançarmos a felicidade.

A capa não podia ser mais apropriada. Um jovem louro, de mochila às costas, observa atentamente “A Ronda da Noite” de Rembrandt. A sinopse, na contracapa, que geralmente dispenso, é sintética e perfeita. Leo, que está sempre a desabafar connosco, leitores, tem uma relação muito forte com alguns dos quadros do museu, que visita assiduamente. Mário, o pai de Leo é segurança no museu e Leo encontra nesses quadros e nas suas figuras “a família” que não tem em casa. Primeiro as discussões, os gritos e depois as cenas são-lhe insuportáveis. “As Figuras dentro dos quadros, acolhiam-no como uma grande família, unida para sempre” (pág. 14), algo que nem Mário, nem Nina a mãe, nem Mart, o escritor companheiro do pai lhe conseguiam dar. A saída seria a fuga em que criasse uma máscara que fosse a síntese de detalhes de cada um dos quadros, mas “sem sorriso algum” (pág. 95). O grande problema era não poder levar o Cão Puck. Leo estabelece um pacto de silêncio com o leitor/a, a quem pede ideias, sugestões e a quem confia o seu plano de fuga.

Anos antes, Mário vira-se forçado a abandonar o Alentejo, quando o pai e os companheiros da venda, “o peso de uma voz em fúria e o peso das vozes masculinas, unidas pelo escárnio, enfim reconciliadas” (pág. 78) o tinham expulsado “repelindo essa nódoa de virilidade” (pág.66). Agora, depois de expulso do museu, por não ter conseguido reprimir a sua fúria, reencontra-se com a velha mãe perdida no seu mundo, mas com lampejos de memórias, para a salvar do dilúvio. Quem resgatar? O que resgatar? “Depois de enrouquecer, sem resposta do filho, Mário abandonou-se a um canto do barco. As lágrimas da vida inteira corriam de uma só vez, rendidas à inutilidade da coragem, à ineficácia das fugas sucessivas. Não existem regressos nem reencontros, pensava ele. Todos os passos vãos, menos os que se encaminham para o fim.” (pág. 131).

Quando cheguei ao fim deste livro, percebi que numa segunda, terceira leitura iria certamente descobrir outros sentidos, mas foram o sentido da fuga e da luta pela felicidade as marcas que senti mais fortes, neste mais recente livro de Julieta Monginho, autora com diversos prémios ao longo duma carreira literária com mais de vinte e cinco anos.

Maio 2022

Almerinda Bento

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