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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

"Viagens" de Olga Tokarczuk

05.06.19, Almerinda

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Viagens, Olga Tokarczuk, 2007

Quando comprei este livro, o primeiro gesto que tive foi procurar o índice, para perceber que viagens a autora nos queria propor. Mas não encontrei nenhum índice e à medida que fui começando a leitura, fui descobrindo capítulos ou fragmentos, mais ou menos curtos, descontínuos, que fui assumindo como uma espécie de “remendos” que teriam um nexo e que iriam constituir uma manta num patchwork final. “Viagens” foi o título escolhido pela tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz para a edição portuguesa do original polaco “Bieguni”, também o título de um capítulo a meio do livro que designa uma seita de antigos crentes ortodoxos para quem o movimento contínuo era uma forma de desapego, de fugir do mal e garantir a liberdade. Das 92 edições em 18 línguas que “Bieguni” já tem e que foi galardoado com o Man Booker 2018, considero o título escolhido – “Viagens” – uma excelente tradução para um livro difícil de caracterizar.

Volto à ideia do “retalho”. Não me foi fácil avançar na leitura deste livro. Podia ter saltado de retalho em retalho, mas segui disciplinada e ordeiramente na leitura, como se de um romance com princípio meio e fim, mas a ideia de que aqueles retalhos no fim iriam fazer sentido e que alguns deixados soltos iriam no fim encontrar o parceiro a que se juntar surgiu-me, sobretudo na história misteriosa daquele casal de férias numa ilha croata em que a mulher e o filho desaparecem. O que lhes terá acontecido?

Outras histórias nos são contadas: Philip Verheyen, o anatomista, médico que descobriu o tendão de Aquiles e registou em desenhos meticulosos e perfeitos os detalhes do corpo humano, porque para ele “ver é saber”. Tendo perdido uma perna muito jovem, por lhe ter sido amputada na sequência de um incidente com um prego que lhe provocou uma infecção irreversível, viveu ao longo da vida com dores insuportáveis na perna amputada, a que chamava “fantasmas”. Tendo conservado o membro amputado numa solução própria para que não se degradasse e apesar do seu desejo de que, quando morresse, a perna amputada acompanhasse o seu corpo, a verdade é que tal não aconteceu. Consideraram que Philip Verheyen tinha morrido louco.

Outra história é a da colecção de amostras anatómicas de Ruysch que foi comprada pelo czar Pedro I da Rússia. Para Charlotta, filha de Ruysch, que nunca casou e que dedicou toda a vida ao trabalho do pai, aquela separação da colecção de peças anatómicas que o pai criara e que ela sempre acompanhara, foi um desgosto que a levou a pensar partir num dos barcos ancorados no porto holandês, fazendo-se passar por homem…

 E a história de Annuszka da sua vida com um filho doente, um marido “mutilado” de guerra, com um dia por semana em que a sogra a substitui, um dia de folga como cuidadora, um dia só para si em que deambula pela cidade de Kiev com o objectivo de se sentar por momentos numa igreja, um momento para chorar. É num desses dias que encontra aquela mulher bizarramente vestida, à saída do metro, gritando imprecações enquanto se desloca continuamente. Uma bieguni.

A história de Angelo Soliman, contada pela sua filha Josephine em cartas dirigidas ao imperador Francisco I da Áustria. Trazido do norte de África como escravo, as suas qualidades de pessoa encantadora, hábil político e homem muito inteligente, fizeram que se tornasse uma pessoa prestigiada na corte e digna de um lugar de destaque no seio das amizades mais íntimas do imperador. No entanto, esses atributos não obstaram a que no final da sua vida, devido ao exotismo da sua raça, o imperador tivesse dissecado e embalsamado o corpo de Soliman e o pusesse em exposição ao lado de animais selvagens. As cartas pungentes de Josephine Soliman rogam que o imperador seja sensível e lhe entregue o corpo do pai, para que lhe seja feito um funeral digno de um ser humano. No meio não deixa de pôr o dedo na ferida, ao referir o poder dos senhores e dos tiranos sobre os corpos dos seus servos.

Outra história belíssima é o reencontro de uma mulher com o antigo namorado que deixara na Polónia há muitos anos atrás. Os anos passaram, a distância também e tudo é estranho: ele, a cidade, a Polónia. Ele está à morte e ela vai numa “missão óbvia e asséptica, uma missão de amor”.

A história mirabolante de Chopin que tinha pedido para ser sepultado na sua terra. E assim, ele teve dois funerais: o primeiro na igreja da Madeleine e o segundo meses depois em Varsóvia. A irmã de Chopin conseguiu cumprir o pedido do irmão levando o coração dele para ser sepultado em Varsóvia.

Por fim, Kairos é a história de Karen e do seu marido – o professor – vinte anos mais velho que ela. Todos os anos é convidado a proferir palestras sobre a Grécia Antiga a bordo de um navio que percorre as ilhas gregas. Numa queda fatal, o derrame cerebral que lhe dita o fim da vida é descrito de forma extraordinária como se de um dilúvio de sangue se tratasse, o qual vai aos poucos apagando todos os traços, memórias e acontecimentos da vida do professor.

Tudo histórias à volta do corpo, dos corpos, dos defeitos físicos, das monstruosidades, dos detalhes dos corpos, das arrumações dos órgãos, da sua conservação, da plastinação. Viagens no interior dos corpos. Sempre as viagens.

Viagens, tudo viagens, lembrando que, logo no início, a narradora se apresenta como uma nómada, alguém que nunca aprendeu um ofício, que vive de biscates, que prefere a instabilidade e a precariedade, como um rio. É o que sai da norma, o incompleto e o estragado que a atrai.

Neste livro há pontos que surgem com alguma frequência como a paixão pala Anatomia como já referi, mas também, por exemplo, a presença das baleias e aqui não poderei deixar de recordar a história de Eryk que aprendeu a falar inglês na cadeia através da leitura de Moby Dick!

Este é pois um livro surpreendente em que apetece voltar atrás, reler uma passagem mais densa, voltar ao princípio e descobrir um aspecto para o qual não estávamos despertos/as numa primeira leitura, encontrando as linhas que cosem os retalhos, os pontos de encontro que casam um retalho com outro. Um “caos” onde nos organizamos, onde nos descobrimos, onde nos encontramos. Um livro a que se pode sempre voltar e onde se encontram detalhes com que nos identificamos como viajantes, como peregrinos, como amantes da viagem pelos livros.

3 de Junho de 2019

Almerinda Bento

 

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