Uma pilha incompleta

Uma pilha incompleta
De facto, a imagem não corresponde aos livros que li ao longo deste ano de 2025. A pilha está incompleta. Estes são os que tenho neste momento em casa. Como li vinte e quatro livros, os dez que faltam aqui, ou estão emprestados, ou requisitei-os na biblioteca municipal e, portanto, não podem fazer parte da fotografia.
Foram seis autores homens e dezassete autoras mulheres, o que geralmente me acontece, e nem é por num dos clubes de leitura que frequento, só lermos mulheres escritoras. Onze autores portugueses e doze estrangeiros e aqui o equilíbrio é maior. A maioria das obras foram escritas já neste século e apenas cinco no século passado.
Ora então aqui os trago de novo, por ordem de leitura entre Janeiro e Dezembro. Um mundo emoções, de descobertas, de grandes leituras.
“Na Terra dos Outros” - Manuel Abrantes, 2024
“O que ela se interrogava era como faria para abrandar e imobilizar a bicicleta sem tombar desamparada. Ocorreu-lhe que seria mais prudente conservar-se em movimento, rua após rua, esquina após esquina. Ali estavam já os dois jovens diante do bloco de apartamentos, os seus filhos adolescentes a olharem para ela pasmados, tão pasmados que seriam incapazes de rir ou de protestar.”
“Do Outro Lado do Sonho” - Ursula K. Le Guin, 1971
“Poderia alguém, mesmo são, viver neste mundo sem dar em doido?”
“Um Dia na Vida de Abed Salama” - Nathan Thrall, 2023
“O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira”.
“El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José” - Ana Cristina Silva, 2024
“Quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos?”
“Corpo Vegetal” - Julieta Monginho, 2024
Vale a pena avançar quando “já ninguém acredita em nada” e já ninguém acredita no #metoo?
“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005
“O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.”
“Proibida na Normandia” – Rosario Raro, 2024
«Se não acabarmos com a guerra, a guerra acabará connosco».
“O Baile” – Irène Némirovsky, 1930
É em torno deste mal viver que se desenrola este pequeno conto que tem um desenlace insólito.
“Filho da Pide” – Paulo Jorge Pereira, 2023
“passado meio século sobre a queda dos fascismos, foi então possível começar a compreender os fenómenos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colaboração de vastos grupos sociais ou instituições que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma violência irrestrita das polícias políticas sobre os seus compatriotas resistentes.”
“As Malditas”. Camila Sosa Villada, 2019
“O meu pai e a minha mãe sentiam vergonha de mim. (…) Mas eu também sentia vergonha deles”
“As Moscas de Outono” – Irène Némirovsky, 1931
“Eles, (os Karine) iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas”
“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024
“Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.”
“Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023
“De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.”
“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” – Teolinda Gersão, 2021
“A Alemanha regrediu milénios, e mergulhou numa barbárie a que poderíamos chamar pré-histórica. Parecia impossível, mas aconteceu”
“A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011
“Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.”
“Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954
“Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”
“As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019
O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?
“Anos de Brasa” – Luís Farinha, 2025
“Quem nos garantia que os «analfabetos» desejavam ter consciência de si e do mundo em troca de aprender a escrever e ler nomes de coisas?”
“Como Animais” – Violaine Bérot, 2021
“Nós
as fadas
vemos
o que alguns homens
por vezes
fazem às mulheres
sem lhes perguntarem
nada.
Sem pedirem
às mulheres
o seu consentimento
sem lho pedirem
os homens
antes.”
“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988
“Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…”
“Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017
“De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.”
“Gaza Está em Toda a Parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025
“A Europa disse: nunca mais, e era mentira. Estamos a ver o genocídio ao minuto num campo de concentração”
“Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009
“Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado.”
“Pequenas Coisas como Estas” – Claire Keegan, 2021
“a última lavandaria de Madalena só foi encerrada em 1996. Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato.”
27 de Dezembro de 2025
