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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho

19.11.19, Almerinda

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Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho, 2017

Um livro extraordinário.O primeiro que li de Julieta Monginho e que recebeu por unanimidade o prémio Fernando Namora. Já antes, em 2008, recebera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE por outro livro, sendo significativa a sua produção literária. Depois de ter lido “Um Muro no Meio do Caminho” só posso dizer que tenho andado distraída, pois Julieta Monginho é uma escritora que merece ser conhecida e divulgada.

No Verão de 2016 aportou a uma ilha grega, não como turista, mas como voluntária num campo de refugiados. Este livro para o qual alerta os leitores que se trata de ficção (será mesmo?) traz-nos uma série de personagens cujas vidas estão suspensas numa “ilha que é uma prisão disfarçada de paraíso”. No meio do pó ou da lama, do calor asfixiante ou do frio inclemente que fustiga as tendas e os contentores onde se amontoam, dos ratos ou dos escorpiões, os refugiados são sobreviventes que ousaram fugir do inferno da guerra em Alepo, ou no Afeganistão e continuam a sonhar com uma Europa que os olha de lado, que os cerca de arame farpado, onde a roupa a secar é o sinal da dignidade daqueles seres humanos que estão ali para lembrar ao mundo o direito de asilo que lhes assiste por direito e a Declaração Universal dos Direitos Humanos que orgulhosamente a Europa assinala a cada 10 de Dezembro e que está na génese daquilo a que se convencionou chamar construção europeia.

As personagens que nos traz são a paleta do mundo que se encontra confinado num espaço exíguo que sendo Europa é como se não fosse e que aguardam o salvo-conduto até Atenas para daí seguirem para poderem concretizar os seus sonhos: jovens mulheres de hijab, rapazes rebeldes ou sonhadores (lunáticos?), mulheres sem chão porque perderam tudo, crianças não acompanhadas “sem casa nem futuro”, crianças abusadas, intérpretes, cineastas, voluntários incansáveis também eles “náufragos de idênticas perdas…”. São pessoas de carne e osso, escrevem e desenham em cadernos, trouxeram um telemóvel e um computador protegidos dentro dum saco de plástico, guardam a t-shirt que o filho vestia quando foi abatido, gostam de dançar e de fazer filmes, apaixonam-se. Revoltam-se, inventam esquemas para fugir, fintam a burocracia, desesperam. Quem é refugiado? Quem procura auxílio? Quem é livre?

Claramente identificada com valores de solidariedade e igualdade entre as pessoas e com especial atenção e sensibilidade para as barreiras que se erguem à emancipação e liberdade das mulheres, Julieta Monginho questiona os estereótipos, quer levar para aquela ilha e para aquelas raparigas e mulheres no Athena Centre for Women toda a bagagem teórica que trouxe de Portugal, mas coloca-se numa posição humilde, de questionamento e de profundo respeito por aquelas pessoas. “O que é que faço aqui se não lhes valho?” “… mas pouco podia fazer para ajudar.” ”Em que fresta da sua identidade entrava o meu paleio ocidental?” Afinal o testemunho escrito contido neste livro, com personagens e situações ficcionadas ou não, é por ventura o apoio que perdurará no tempo para a causa dos refugiados. Enquanto leitores/as não esqueceremos o apelo de Ashmahn, a jovem grávida, quando se despede da ilha ao encontro do marido na Alemanha “Vê e não esqueças. Vê e dá notícia.”

Este livro é uma denúncia. Um testemunho comovente. É o pulsar do real, dos nossos dias, das nossas vidas, do nosso mundo. Um abanar do acomodamento, da distância, daquilo que está longe e não me diz respeito, da insensibilidade. “O mundo já não se choca com nada.”  Valha-nos a literatura para derrubar os muros que estão no meio do caminho.

18 de Novembro de 2019

 

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