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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Rua de Paris em Dia de Chuva, Isabel Rio Novo

16.07.21, Almerinda

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Rua de Paris em Dia de Chuva, Isabel Rio Novo, 2020

Este é o primeiro livro que leio de Isabel Rio Novo, um romance-paixão pelo pintor Gustave Caillebotte, a personagem central. Autora, Helena e Gustave são as três personagens que se encontram, que se fundem, que criam uma cumplicidade com o/a leitor/a, numa construção e numa teia de ligações e questionamentos.  

 A Autora, apaixonada pela figura e pela obra de Gustave Caillebotte, quer saber mais sobre ele. Servindo-se de documentos e da tese de uma historiadora de arte – Helena – vai recriando-os à sua maneira. Tal como António Gedeão escrevera num poema dedicado a Camões “Ao Luís Vaz, recordando o convívio da nossa mocidade”, ou Yourcenar e Adriano que estabelecem “um contacto ininterrupto”, também a Autora sente por Gustave Caillebotte aquilo a que chama “a ligação a alguém com quem nunca nos cruzámos.”

Gustave Caillebotte nasceu em 1848 e faleceu em 1894. Para além de pintor, foi mecenas, coleccionador de arte e de selos, velejador, eleito no Conselho Municipal da comuna onde viveu os seus últimos anos de vida, engenheiro naval, horticultor… Foi excelente em tudo a que se dedicou com paixão, não tendo exercido a carreira de direito correspondente aos estudos que seguiu quando jovem. A Autora faz-nos a genealogia de Gustave, retrocedendo ao bisavô e à Normandia natal. Descreve-nos a França e as suas enormes transformações ao longo da segunda metade do século XIX, fala-nos de Napoleão III, das suas ambições expansionistas com a invasão da Prússia e o desaire que resulta na capitulação, da experiência da Comuna de Paris; e da cidade de Paris que em duas décadas se transformou numa cidade limpa, arejada, ampla e moderna por obra do barão de Haussmann. Desde a construção do Louvre, às amplas avenidas, à Torre Eiffel, todo o progresso e os novos inventos da era industrial estavam patentes nas grandes Exposições Universais.

A situação privilegiada que herdou resultante do negócio dos têxteis da família, permitiu que o jovem estudante de pintura na Academia de Belas Artes, conseguisse, ao invés de outros pintores da época, ter uma vida desafogada e sem as angústias de não ter dinheiro para alimentar a família. Também na pintura os cânones estavam a ser postos em causa. Os pintores vinham para o exterior, queriam captar o momento, a transitoriedade da vida, as sensações produzidas pelas paisagens. Queriam sair do espartilho e da rigidez dos júris que seleccionavam as telas para o Salão Oficial. Organizam-se, discutem ideias, inovam na maneira de expor. Só no século seguinte os seus nomes passarão a ser conhecidos, mas não deixarão de pintar e de seguir as suas ideias, mesmo que tenham tido prejuízos, desaires, uma imprensa conservadora que os ignorava ou escarnecia apodando-os de “alienados”, ou “um grupo de infelizes atingidos pela loucura da ambição.” Era muito difícil para a elite instalada no Salão Oficial, para os críticos e jornalistas que lhes eram fiéis, verem um grupo de jovens pintores abanar o edifício em que estavam instalados. A persistência venceu, mas a capacidade financeira de Gustave Caillebotte para comprar algumas das suas telas, para pagar as rendas dos espaços alugados para as exposições, para pagar contas e dar dinheiro a alguns desses pintores seus amigos foi imprescindível para que o grupo não se desfizesse logo de início. Renoir, Manet, Monet, Pissarro, Degas, Mary Cassatt ou Berthe Morisot, que só mais tarde vieram a figurar como os grandes mestres do impressionismo, beneficiaram do mecenas Caillebotte, que sendo seu par na pintura, acabou por ficar praticamente esquecido como pintor impressionista com uma imensa quantidade de telas pintadas ao longo de toda a sua curta vida, reflectindo a sua vivência em Paris, em cenas familiares, em Argenteuil ou Petit Genevilliers.

Mas, como também já tentei aqui dizer, o romance é muito mais do que a vida do pintor. É o entrelaçar da vida de Gustave com a Autora como se os cerca de cento e cinquenta anos de vida que os separam não existissem. “ … é por isso que vale a pena escrever livros, para poder conversar à distância com aqueles que amamos e que não são do nosso tempo. Que triste e pobre seria a vida se as nossas afeições estivessem limitadas àqueles com quem nos cruzamos realmente. Que longos nos pesariam os dias se aqueles que morreram antes de nós estivessem mesmo ausentes.” Mais do que a cumplicidade entre eles, há um paralelismo na Autora que escreve e no pintor que pinta. A Autora escrevia como se tentasse desenhar, “buscando beleza nas ideias, nas construções, na melodia das palavras”. Quanto à figura de Helena é um enigma que fica para ser resolvido por quem ler este romance.

Este livro foi uma revelação para mim. A escrita de Isabel Rio Novo é bela e cuidada. A vida deste pintor impressionista, personagem multifacetada, que não se consegue encontrar nos livros de arte, como se não tivesse existido. Uma figura obscura, esquecida, invisibilizada e que Isabel Rio Novo nos quis dar a conhecer e a descobrir, talvez numa visita a uma ala dos impressionistas nalgum museu numa cidade da Europa ou dos Estados Unidos.

13 de Julho de 2021

 

 

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