Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Porque somos mais nómadas que sedentários

09.09.19, Almerinda

Clube de Leitura.jpg

Foram quase dois anos a viajar, no meu caso. E hoje a nossa viagem fez uma paragem e despediu-se num até breve, até já, até sempre de uma das nossas companheiras de viagem. Aquela que nos interpelava, que nos lançava novos desafios, que ia na carruagem da frente e que decidiu seguir o seu caminho, sair dum trilho que já não a satisfazia e que se lançou numa outra direcção, menos confortável mas mais desafiante.

"Os livros são de facto uma viagem", disse ela. E fomos buscar as nossas memórias, os nossos primeiros livros, alguns que nos fizeram crescer e que fizeram de nós aquilo que somos. Alguns que sublinhámos - os lápis são tão preciosos - outros a que acrescentámos as nossas notas e anotações, outros a que voltamos sempre ou de vez em quando e em que nos revemos.

Cada uma de nós entrou em paragens diferentes. Quando eu cheguei com o Ishiguro, pela mão da Teresa, já outras tinham entrado antes com a Ferrante ou a Sophia. Repeti Sandor Marai, aprofundei João Pinto Coelho, descobri Stefan Zweig que conhecia só de nome, rumei ao Farol com Virginia Woolf, deslumbrei-me com Maria Teresa Horta e as suas Luzes de Leonor, entrei nas Três Vidas de João Tordo, contorci-me com Kafka, desconstruí o Natal e os Reis Magos com Michel Tournier, apaixonei-me por Selma Lagerlöf pela mão de Cristina Carvalho, aprendi muito com Chimamanda Ngozie Adichie, uma inspiração, descobri a força da escrita de Grazia Deledda, a segunda mulher a receber o Nobel da Literautura, revisitei e de novo me deslumbrei com a contensão dorida de Maria Judite de Carvalho, aprendi a ler correctamente o nome de Olga Tokarczuk mas, sobretudo, fiquei rendida às suas Viagens, tal como amei Manuel Vilas e nunca mais esquecerei a viagem de comboio que fiz durante cinco semanas com Paul Theroux, numa viagem imensa que nunca tinha pensado fazer.

Mas o melhor de tudo é que todas estas viagens eu não teria feito se as tivesse pensado sozinha. Se não as tivesse compartilhado com estas minhas companheiras de viagens que, por seu lado, viajando comigo, olharam para as "paisagens" com outros olhos, outras perspectivas. Os seus olhos. As suas perspectivas.

E foi isto que fez das nossas viagens, viagens ricas, estimulantes, diversas, únicas e extremamente enriquecedoras.

A despedida tem sempre um aperto na garganta. Mas já temos alguém que não vai deixar o barco/comboio à deriva. Bem vinda.

Regresso a uma citação de Rubem Alves que muito gosto e que tem tudo a ver com esta nossa viagem e com a partida.

"Amar é ter um pássaro pousado no dedo.

Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. "

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.