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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Pássaros Feridos

11.07.20, Almerinda

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Pássaros Feridos”, Collen McCullough, 1977

 

Certamente por já ter lido alguma apreciação muito favorável sobre este livro, há bastantes anos que ele estava numa “lista de livros a ler um dia” que vai sempre crescendo. A verdade é que ele chegou até mim pelas mãos de uma amiga, como um livro que lera e que a marcara e, finalmente, até porque era volumoso e estava (estou) a viver um período em que muitas das minhas leituras são feitas em casa, chegou a sua vez. Confesso que demorou mais tempo a ler do que esperava, talvez porque tem partes que podiam ter sido suprimidas, sem que o valor da narrativa perdesse.

É uma narrativa que se passa maioritariamente na Austrália, país de onde é natural Collen McCullough, a romancista e neurocientista autora do romance. A decorrer entre 1915 e 1967, o romance está dividido em sete partes, tendo cada uma como título os nomes das personagens femininas da família Cleary e dos homens da vida de Meggie. Podemos dizer que é a saga de uma família, em que a Austrália e a fazenda Drogheda são também personagens do romance. A natureza é exuberante e descrita de forma muito visual: chuvas torrenciais, secas terríveis e prolongadas, tempestades secas, fogos arrasadores, calor, pó e moscas, sem esquecer as rosas ou as buganvílias. Sendo a caracterização das personagens e a complexidade dos seus sentimentos e emoções um ponto alto deste romance, é Meggie desde menina, seguindo o seu desenvolvimento até à velhice solitária na grande fazenda da família, aquela que tem especial centralidade ao longo dos cerca de sessenta anos em que a história se desenrola.

O mundo mudou muito desde as primeiras décadas até perto do último quartel do século passado. A acção passa pela depressão dos anos 30, a fome e o desemprego, as secas, a 2ª grande guerra e o envolvimento da Itália, do Vaticano, da Europa e do mundo, a ditadura dos coronéis da Grécia. Mas para além das mudanças na política no mundo, também as mudanças nos hábitos, nas concepções, nos costumes e atitudes das personagens, na forma como concebem a ideia de família, de amor, de educação das mulheres e dos homens. Desde o início que a autora sublinha aspectos discriminatórios na vida e educação de mulheres e raparigas quando comparadas com homens e rapazes, sendo Justine, a filha de Meggie, personalidade independente e totalmente alheia a convenções, quem corta com as tradições de família e vai seguir o seu destino. Mesmo num meio em que a mulher é educada para ser remetida a um papel subalterno, em que esconder emoções e recalcar sentimentos é o que é expectável, a verdade é que todas as mulheres de Drogheda – Fee, Meggie e Justine – são fortes, intuitivas e lutadoras. Em minha opinião, este é um romance de mulheres, são elas as verdadeiras heroínas.

A terminar, outro aspecto central no romance tem a ver com o poder da Igreja católica, com a questão do dever de castidade que a Igreja impõe aos sacerdotes, recalcando neles o que é da natureza humana, em função de uma obediência exclusiva a um deus. Um aspecto que se mantém nos dias de hoje, atestando a rigidez e conservadorismo da Igreja, embora, de tempos a tempos, vozes isoladas e corajosas ponham em causa a questão do celibato dos sacerdotes como o caminho que mais tarde ou mais cedo será inevitável.   

10 de Julho de 2020

Almerinda Bento

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