O Fernando e os livros

Estava à espera do autocarro para o comboio quando vi o Fernando a sair do autocarro do outro lado da rua. Acenei-lhe e ele atravessou a rua para vir falar-me. Há alguns meses que não nos víamos.
Cumprimentamo-nos e ele mostra-me o que traz na mão. - Almerinda, venho da feira da bagageira do Barreiro. Veja o que comprei: Jorge Amado, não podia perder. Olhe como está em bom estado e paguei 1euro por ele. Veja bem, um euro!
Todos os fins de semana, o Fernando corre as feiras da bagageira à procura de pechinchas livrescas. Conhecia-o há anos, mas só de vista. Conheci-o melhor nas minhas aulas de Inglês no passado ano e como assíduo participante no Círculo de Leitura da Unisseixal. Aí percebi que era um leitor compulsivo, apaixonado por Saramago e outros grandes nomes da literatura universal.
Depois disse-me que tinha cinco livros na mesinha de cabeceira à procura da sua vez. E entre eles Os Cus de Judas. Passámos a falar do livro, de António Lobo Antunes, do horror da guerra e das marcas da guerra nos homens que fizeram a guerra nas colónias. E ele disse-me que também ele tinha estado em Angola, no cu de Judas, como Lobo Antunes.
Depois lembrei-me daquela vez em que nos confiou, numa sessão do nosso círculo de leitores, que na tropa, enquanto todos jogavam, ele lia e encontrava na leitura o espaço de evasão duma guerra injusta e sem sentido.
Pois é. A literatura salva mesmo.
5 de Setembro de 2024
