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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

O fascínio dos jacarandás

25.05.19, Almerinda

jacarandás.jpg

De repente, surgem as primeiras flores lilás na copa das árvores e ao fim de poucos dias é o fascínio dos jacarandás cobertos com as suas flores maravilhosas. Sem precisarmos de olhar para o calendário, olhamos para o céu e aquela explosão de flores de jacarandá anuncia para breve a festa dos livros no Parque Eduardo VII, a Feira do Livro. São também os primeiros sinais de que o Verão está a chegar.

Árvore originária do Brasil, o clima quente de Lisboa e de terras ao sul do Tejo, permitiu que ela se sentisse bem no nosso país, desde que, por ordem do director do Jardim Botânico de Lisboa, se instalou por cá, no início do século XIX. As flores não vão demorar muito tempo nas copas e irão atapetar os passeios cobrindo-os com um manto roxo, mas enquanto duram são uma delícia para os olhos.

Eugénio de Andrade também se deixou fascinar pelos jacarandás de Lisboa:

"São eles que anunciam o verão. 
Não sei doutra glória, doutro 
paraíso: à sua entrada os jacarandás 
estão em flor, um de cada lado. 
E um sorriso, tranquila morada, 
à minha espera. 
O espaço a toda a roda 
multiplica os seus espelhos, abre 
varandas para o mar. 
É como nos sonhos mais pueris: 
posso voar quase rente 
às nuvens altas – irmão dos pássaros –, 
perder-me no ar."

 

ou neste outro texto intitulado "Em Lisboa com Cesário Verde" in Homenagens e outros Epitáfios de 1986

"Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura  à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da língua."

 

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