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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

O Dia dos Prodígios, Lídia Jorge

03.11.20, Almerinda

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O Dia dos Prodígios, Lídia Jorge, 1980

Já li vários livros de Lídia Jorge mas, embora tivesse adquirido “O Dia dos Prodígios” em 1984 (!), estranhamente ainda não tinha lido este seu primeiro livro. O facto de ter sido este ano nomeado várias vezes, por comemorar 40 anos da sua primeira edição e por ter lido no prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins a “Os Memoráveis” “Lídia Jorge tem, por outro lado, razão quando coloca Os Memoráveis ao lado do seu primeiro romance – O Dia dos Prodígios – tendo a sensação correta de o estar a atualizar”, levou-me a decidir ler “O Dia dos Prodígios” logo a seguir a “Os Memoráveis”.

Não posso deixar de dizer que me causou alguma estranheza, mal iniciei a leitura. Nem foi fácil entrar no espírito da narrativa. A utilização da pontuação muito sincopada com pontos finais constante no meio de frases cuja utilização não corresponde ao que é habitual e gramaticalmente correcto, os diálogos encadeados das personagens pondo o/a leitor/a como testemunha no meio daquelas conversas sobrepostas num registo de oralidade pura, a linguagem que faz sobressair o vocabulário da região algarvia, tudo isso foram traços da escrita que não identificava com a obra de Lídia Jorge já lida.

“O Dia dos Prodígios” decorre em Vilamaninhos, uma aldeia fechada sobre si mesma, atrasada, rural, cujos habitantes mais não têm para além do seu próprio mundo que o mundo dos vizinhos. O progresso para eles está lá longe, em Lisboa. Para além da camioneta da empresa EVA que os leva a Faro, pouco usada porque os deixava amarelos e enjoados preferindo as deslocações em mulas, a telefonia que um dia José Pássaro Volante trouxe para casa são os raros sinais de alguma abertura ao mundo exterior.

E quem são as personagens deste romance? José Jorge Júnior e a mulher Esperancinha são os primeiros habitantes de Vilamaninhos. Já são velhos e estão sozinhos. Dos doze filhos, para além do que morreu, todos partiram para terras distantes.

Carminha, filha de pai incógnito, embora todos soubessem que era filha do padre, sonha que um dia irá casar com um forasteiro, vive com a mãe, longe da maledicência e da coscuvilhice dos vizinhos que espiam os movimentos das duas.

Jesuína Palha é a coscuviheira-mor, alvoroça toda a aldeia com a ficção da cobra que depois de morta cria asas e voa e que é preciso que se descubra onde se escondeu.

José Pássaro Volante e Branca são talvez as personagens mais perturbadoras. Branca teve a noção clara de que aquele homem com quem iria casar lhe iria dar má vida, tal como dava às mulas e às bestas. A brutalidade da relação para quem a mulher e os animais são seres que Pássaro Volante quer amestrar, amesquinhar, domar, quer através da vara, dos estalos, dos pontapés, ou através de uma colcha onde Branca borda um dragão alado com escamas feitas de missangas. A colcha era a prisão de Branca; aquilo de que não era capaz de se libertar. Como dizia o cantoneiro, o único homem que sabia ser amável para com ela, “Ninguém se liberta se não quiser libertar-se.”

Manuel Gertrudes e Macário são outras das personagens que quero nomear. O primeiro, sempre a recordar a sua experiência na guerra de 14-18 e Macário, uma personagem estranha, talvez bipolar, que fala em verso e que tem uma paixão não escondida por Carminha.

Até que um dia, aqueles homens e mulheres ouvem a notícia de que houve uma revolução sem sangue em Lisboa. E com ela a esperança da mudança, da chegada da electricidade, da água canalizada, do saneamento a todo o país e também a Vilamaninhos. De concreto, um dia a chegada de “um carro celestial” nas palavras de Jesuína Palha carregado de soldados, daqueles que se dizia iriam correr o país de norte a sul para ouvir as queixas das pessoas. Só que falaram e mal ouviram os problemas dos Vilamaninhenses, logo de partida para outras terras. No ar, a dúvida, a dificuldade de acreditar na mudança.

“O Dia dos Prodígios” é, quanto a mim o retrato de um Portugal esquecido, analfabeto, um Portugal que o 25 de Abril encontrou e que quis libertar.

Outubro 2020

Almerinda Bento

 

 

 

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