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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Marquesa de Alorna Querida Leonor

16.08.20, Almerinda

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Marquesa de Alorna - Querida Leonor”, texto de Luísa V. de Paiva Boléo, ilustrações de André Carrilho, 2017

 

Não conhecia esta colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma edição da Imprensa Nacional e da Pato Lógico Edições e fiquei interessada em ler este pequeno livro, pois tinha lido “As Luzes de Leonor”, um livro fascinante e uma das grandes obras da escritora Maria Teresa Horta. Esta obra de Luísa Paiva Boléo é uma boa sugestão de divulgação da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, 4ª marquesa de Alorna.

É um livro de leitura rápida que começa por fazer a contextualização do período em que D. Leonor viveu, quer em Portugal quer na Europa. Era o século XVIII, as ideias do Iluminismo espalhavam-se pela Europa, mas eram ainda muito incipientes em Portugal. Quando se dá o terrível terramoto de Lisboa de 1755, Leonor tem apenas cinco anos. O seu avô D. Francisco de Assis de Távora que tinha sido vice-rei da Índia e que regressara há pouco a Portugal não cai nas boas graças do rei D. José e sobretudo do seu secretário de Estado do reino Sebastião José de Carvalho e Melo que, aproveitando uma tentativa de regicídio, acusa e persegue a família de Leonor, ficando este caso conhecido na história como o processo dos Távora. Para além das execuções e das muitas prisões, Leonor, a irmã e a mãe são encarceradas no convento de S. Félix em Chelas. Vão ser 18 longos anos que vão ser aproveitados pela jovem Leonor para se instruir e para definir aí o caminho de mulher de letras e de conhecimento que vai perseguir ao longo de toda a vida.

Leonor, a irmã e a mãe só serão libertadas com a morte do rei D. José. D. Maria I, sua filha, irá libertá-la assim como mais de oitocentos presos políticos, sendo que a revisão do processo e a reabilitação dos Távora só ocorrerá alguns anos mais tarde. É o fim do poder do Marquês de Pombal que será demitido.

Leonor tem então 26 anos. Casa-se com um militar alemão. As suas qualidades invulgares de mulher interessada pelas letras e pelas novas correntes do pensamento que vinham da Europa não se coadunavam com a estreiteza de pensamento e atavismo da nobreza portuguesa. Nem o facto de ter tido várias filhas a amarrou a uma domesticidade que pareceria inevitável. Viaja e é admirada em todos os círculos culturais da Europa, ganhando notoriedade em todos os países onde viveu: Áustria, França, Itália, Espanha, Inglaterra. Conheceu gente famosa como Luísa Todi, Mozart, Haydn, Madame de Staël, Correia Garção, Nicolau Tolentino, Bocage, António Feliciano de Castilho, Alexandre Herculano, entre muitos outros. Esteve em Paris e em Marselha quando estalou a revolução francesa.

Tendo tido uma vida longa (1750-1839), atravessou seis reinados, privou com gente influente, influenciou na cultura e na política e destacou-se como uma mulher luminosa, insubmissa e verdadeiramente inovadora, com uma personalidade aberta às grandes mudanças da época. Filinto Elísio dava-lhe o nome de Alcipe quando ela ainda vivia encarcerada em Chelas. Mais tarde, Alexandre Herculano chamou-lhe “a Madame de Staël portuguesa”. Teve muitos títulos, sendo o mais comum ser a 4ª marquesa de Alorna.

Saúdo este livro de divulgação da vida de D. Leonor. Quem quiser de forma pormenorizada aprofundar a vida e personalidade única desta mulher invulgar, aconselho vivamente a leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Inesquecível.

15 de Agosto de 2020

Almerinda Bento