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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Luis Sepúlveda

16.04.20, Almerinda

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Hoje foi um dia triste, mais difícil neste período de confinamento. Luis Sepúlveda, que sabíamos estar em estado crítico por causa da pandemia, deixou-nos.

Li e comprei vários livros dele ao longo dos anos. De entre os vários contos que constituem "As Rosas de Atacama", detive-me em "O Amor e a Morte" e recordei Zorbas que "com o tempo, passou de nosso gato a ser mais um companheiro, um querido companheiro de quatro patas e melódico ronronar."  No meio dos livros, encontrei uma folha  com uma História Marginal de Sepúlveda publicada num jornal de um domingo de Junho de 1999, com o título Astúrias, o local que escolheu para viver depois de ter andado por tantas terras. As razões da escolha encontram-se no que ele então escreveu:

"Odeio falar de mim porque nunca quis ser uma personagem, mas que diabo, suponho que o escritor tem de afrontar a sua própria vida. Num dia de 1997 decidi deixar Paris - oh Paris! - para viver definitivamente num lugar do mundo em que me senti seguro: as Astúrias. E a escolha não foi difícil. 

Nesta região do Norte de Espanha, aberta ao Cantábrico, nós, os marginais que reivinidcamos o direito à marginalidade, somos bem-vindos. Não existe lugar mais marginal  do que as Astúrias. Não há região mais sofrida do que as Astúrias, e para o entender basta estar em Gijón, Langreo, Avilés ou Mieres quando soam as sirenes da tragédia mineira. Acontece - em plena época de bem-estar, na nova ordem internacional - que quando a mina engole um ou mais homens, os serenos vales das Astúrias estremecem numa contorção cósmica. Porém, os asturianos- e eu aprendi tanto com eles, que são duros e ternos, irascíveis e pacíficos, à justa raiva preferem a vontade e a resistência, dois sinais valiosos de identidade. 

(...)

Não é difícil ser feliz, dizem os asturianos a partir da sua marginalidade gloriosa que lhes recorda 34, o atroz, quando pensam nas visitas de Franco e de dona Carmen saqueando as tendas de campanha dos derrotados. E eu, como eles, sei que uma pessoa é feliz "desde que escute uma gaita e haja sidra no lagar."

Por fim, trago aqui um breve trecho de um livro delicioso, um dos primeiros que li deste chileno asturiano: "O Velho que lia Romances de Amor".

"Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.

O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições , mas como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.

Lia, lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.

Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.

Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.

Vivia numa choça feita de canas de uns dez metros quadrados dentro dos quais arrumava o seu escasso mobiliário: a rede de dormir de juta, o caixote de cerveja com o fogão a querosene em cima, e uma mesa alta, muito alta, porque, quando sentiu pela primeira vez dores nas costas, percebeu que os anos lhe estavam a carregar e decidiu sentar-se o menos possível. 

Construiu então a mesa de pernas compridas, que lhe servia para comer de pé e para ler os seus romances de amor. 

A choça era protegida por uma cobertura de palha entrançada e tinha uma janela aberta para o rio. Era a ela que estava encostada a mesa alta. 

Junto da porta estava pendurada uma toalha esfiapada e a barra de sabão renovada duas vezes por ano. Era um bom sabão, com penetrante cheiro a sebo, e lavava bem a roupa, os pratos, os cacos de cozinha, o cabelo e o corpo."

 

Sepúlveda deixou de estar fisicamente connosco, mas permanece na doçura e na força dos seus livros, assim como nos corações daqueles que já o conheceram através das inúmeras personagens e situações que criou. 

2 comentários

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    Anónimo

    17.04.20

    Hoje, fui ler um livrinho precioso que ainda não tinha lido e que estava na minha estante, à espera de um dia. História de um Caracol que descobriu a importância da lentidão? Ele queria perceber por que era tão lento, queria perceber por que não tinha um nome, todos eram caracóis mas sem identidade própria, vivia numa comunidade de caracóis habituados ao "costume" e ele saltou para fora desse mundo em busca de um outro País do Dente-de-Leão. E porque era ousado, persistente, aventurou-se sozinho, encontrou uma tartaruga que lhe deu o nome de Rebelde e conseguiu ganhar alguns jovens caracóis para sair do ramram do "costume". O livro ainda é melhor porque tem desenhos preciosos de Paulo Galindro. Almerinda
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