Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Dublin - 1

14.04.24, Almerinda

Dublin_2024.JPG

Dublin – I

Esta era uma viagem desejada há muito. Pensada para ir com a minha turma de Inglês, mas que acabou por ser feita apenas com o Vítor e a Guiomar, que há tempos me tinha emprestado um CD e um guia para eu planear uma visita a Dublin. A ideia da visita guiada com guias locais e num pacote com refeições, para a tal visita com a turma, acabou por ser abortada, dados os preços astronómicos que comportava. Assim, depois de uma longa campanha eleitoral e de um período de tempo com muito trabalho, a ideia de aproveitar uns dias das férias da Páscoa para desopilar, tornou-se um objectivo e Dublin acabou por ser a melhor opção. Ainda tínhamos uns restos a haver da companhia de viagens da tal ida a Berlim que nunca aconteceu por causa da pandemia e, portanto, o dinheiro do mealheiro de 2023 ajudou a tornar a viagem para os dois menos pesada.

Foram cinco dias, melhor, quatro e meio, com tempo aceitável, mais para o frio e com um dia de vento muito forte e outro de chuva intensa. Hoje que estou a escrever este texto num dia de muito calor, parece mentira que tenha estado em Dublin com 7 graus de mínima e quinze de máxima.

Planeei sem grande rigor, procurando encontrar os sítios que achava incontornáveis, começando por não esquecer o peso da Irlanda e de Dublin para a Literatura, ainda por cima porque andamos a ler Dubliners de James Joyce. A minha lista foi extensa, talvez um pouco irrealista, mas, à partida, sabia, que muito iria ficar por ver, muito iria ficar por descobrir. Assim foi. Depois daqueles cinco dias, fiquei com vontade de lá voltar, de visitar coisas que não vi desta vez, mas sair de Dublin e explorar outros sítios, nomeadamente os Howth Cliffs, a quarenta minutos de comboio de Dublin e que, por via da chuva e do nevoeiro , tentámos visitar mas percebemos que não iríamos ver e, por isso, valeu apenas pela viagem de comboio, bastante acessível e agradável.

Gostei das pessoas. Achei-as simpáticas, fiz conversa com os motoristas dos táxis, deparámo-nos com imensos brasileiros e brasileiras (a 2ª maior comunidade a viver em Dublin depois dos Dubliners), bebi pela primeira vez a famosa Guiness e gostei, fiquei deslumbrada com a visita ao Trinity College, englobando a Long Room, o Book of Kells e a visita ao Pavillion. Num registo diferente, mas também de uma qualidade excepcional, a visita à Guiness Storehouse. Tudo pago a preceito… mas com exposições de elevada qualidade e inesquecíveis. Como é possível estarmos a olhar para a estátua de Mary Woolstonecraft, ou de Shakespeare, de Ada Lovelace ou do filósofo Sócrates e de repente eles começarem a conversar uns com os outros, questionando-se sobre nós, os visitantes da exposição? Impossível não ficar de boca aberta com o desenvolvimento e os recursos que hoje são usados em museus e exposições.

A comida? Pobre, repetitiva e só suportável porque somos turistas de poucos dias. Os pubs? O cúmulo da alegria, com muita pint, muita bebida, muita gente a cantar em coro com o músico de serviço. A vida? Cara, muito cara, pelo menos para nós, mas também certamente para os irlandeses, dado ser visível a quantidade de gente a pedir e de pessoas sem-abrigo. Sei que há entre os guias de ocasião, que se encontram um pouco por todo o lado, rodeados de pessoas que os seguem, também guias que são sem-abrigo e que vivem daquilo que recebem dos visitantes que os acompanham. Em 2022, uma bloguista que sigo, escreveu alguns posts na sequência da sua viagem a Dublin e na altura referiu a excelente experiência que teve numa visita guiada por um sem-abrigo, sobretudo porque levam os turistas a conhecer uma outra realidade de Dublin que não é a realidade turística dos guias oficiais, certamente aquela que é mais próxima da realidade dos locais.

Saí de Dublin com a ideia de que os Irlandeses têm um grande orgulho da sua história, dos seus escritores, da sua cultura e da luta que os tornou independentes do poder colonial inglês. Não posso deixar de avaliar que a minha visão parcelar, superficial, limitada e pobre é a visão da turista ocasional que quer uns dias de evasão e olha para a cidade, para os monumentos, para as pessoas com uns olhos sem filtro, a querer descobrir em tudo o que de melhor lhe é oferecido. Mas não deixa de ser interessante, na primeira saída do hotel, a caminho do rio Liffey, quando estás a olhar para um interessante edifício de esquina, um senhor dos seus setenta e muitos te informa que aquela era uma antiga fábrica de sabão/sabonete (soap). Essa simpatia é algo muito bonito que, infelizmente, tanta falta nos faz nos dias de hoje.

(continua)

4 comentários

Comentar post