"Chuva de Jasmim", Shahd Wadi, 2025

Chuva de Jasmim
Na contracapa de “Chuva de Jasmim” leio as palavras de Alexandra Lucas Coelho: “Este será o primeiro livro palestiniano da poesia portuguesa. Ou vice-versa? Shahd Wadi fez de Portugal a sua morada – até que ir para casa seja possível. Enquanto a Palestina estiver ocupada, o mundo é a Palestina”.
Autora de várias obras de que destaco “Corpos na Trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio”, em resultado da primeira tese de doutoramento em Estudos Feministas em Portugal pela Universidade de Coimbra em 2013, foi recentemente nomeada Escritora Universal Galega 2025.
É uma responsabilidade muito grande ter hoje a tarefa de apresentar o mais recente livro da Shahd. Eu que nunca me aventurei a escrever sobre poesia, serei breve, muito breve. Mas a minha amizade já antiga com esta mulher feminista, que ainda por cima carrega em si o facto de ser palestiniana, não me permitia recusar estar aqui com a Shahd a tentar dar o meu melhor. Judite Fernandes, nossa amiga comum e que fez o prefácio do livro escreve que “Chuva de Jasmim é um livro sobre tudo, sobretudo, é um livro de poesia” e porque este livro respira denúncia, resistência e esperança, Judite lembra-nos que a Palestina é “um país que está a ser apagado do mapa, um país que existe por milagrosa resistência”.
À medida que se folheia e se vai lendo “Chuva de Jasmim”, sente-se a urgência da poesia em Shahd. Ela faz poesia, arte como forma de resistência, como grito de liberdade. Ela que escolheu “viver na terra do mais ou menos”, que não nega algum desconforto com a língua, a tropeçar às vezes nalgumas palavras, é, no entanto, hábil a brincar com as palavras, a criar lenga-lengas “Tráfico Humano” (pág. 61), a provar-lhes as subtilezas, conseguindo ser doce e corrosiva, tendo o condão de trazer a poesia para o quotidiano. Quando lemos “O Mesmo Poema” (pág. 37) que abre o capítulo A Casa percebemos que o poema é o quotidiano.
Os próprios títulos dos poemas são abertos e convocam-nos á inquietação que Shahd logo nos traz no primeiro poema intitulado “Lado a Lado”: “Entrego-vos a minha inquietação do nada/ para que se torne nossa. Palavra dita/escrita/ nunca é em liberdade” (pág. 15). Mas é no último capítulo do livro, intitulado “Chuva de Jasmim” que os poemas me sugerem palavras-chave bem nítidas como “Morte”, “Genocídio”, “Palestina”, “Revolução”, “Resistência”, “Raiva”, “Esperança”. Em “Alucinações sobre flores meio ano depois” (pág. 82) com um cravo na mão descemos a Avenida da Liberdade a gritar 25 de Abril Sempre, Fascismo nunca mais! Mas também:
Huri-ía! Falastin árabiya sempre, sionismo nunca mais!
Em solidariedade, em sororidade, Shahd oferece-nos esta Chuva de Jasmim, porque ela acredita que juntos, juntas temos a capacidade de um dia haver chuva de jasmim!
14 de Janeiro de 2026
(Este texto foi apresentado no âmbito da iniciativa O SPGL na Luta pelos Direitos dos Palestinianos na sessão com o título Cultura e Informação como Meios de Luta do Povo Palestiniano)
