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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira

01.12.20, Almerinda

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Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira, 1996

Este foi o último livro escrito por Vergílio Ferreira. Abruptamente interrompido. Dez cartas dirigidas à mulher amada, já morta, tendo a última ficado incompleta, porque o autor faleceu no momento em que a escrevia.

A publicação de “Cartas a Sandra” é da inteira responsabilidade da filha que escreve uma apresentação a anteceder o romance. Entre várias pastas com escritos do pai, as dez cartas – “um projecto mutilado” – que constituem este romance estavam dactilografadas, pelo que ela considerou que teriam o objectivo de serem publicadas, possivelmente até para fazerem parte de um romance de que não deixou qualquer plano ou projecto. Para além da emoção que estas cartas provocam a Xana e também da dor por atitudes da juventude, elas reflectem o amor que os pais nutriam um pelo outro sendo tão diferentes entre si. A mãe tinha um temperamento frio, austero, pouco dado a exteriorizar sentimentos, como se poderá ler nas cartas, com referências quando ela o repreendia “que tolice” ou “não cresceu desde a adolescência”. (I carta)

Através dessas cartas, no isolamento da aldeia, uma escolha para estar consigo mesmo, perto da serra que amava, ele recorda a mulher para continuar a viver esse amor, para “dizer-te tudo o que não deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias”. (I carta) Interpela-a “Alguma vez soubeste que eu me reprimia contigo? Um certo medo de te desagradar e de te perder?” (VII carta)

Nas cartas, são raras as referências a outras pessoas para além das breves visitas ou telefonemas da filha Xana. Para além de Deolinda que garante a rotina da manutenção da casa e das refeições de Paulo (narrador/autor) e do amigo o doutor Mário, os poucos contactos com pessoas da aldeia ou da vila mais próxima não merecem destaque. Numa das breves visitas de Xana à aldeia, por ocasião do Natal, ele refere na IV carta que durante a Ceia ele sentiu que eram quatro à mesa: ele, a filha, o neto e Sandra.

São densas estas cartas. Ternas, tristes, amorosas, plenas de recordações, Paulo penaliza-se por aquilo que não fez quando Sandra ainda era viva. “Havia o quotidiano da nossa vida e eu estava tão distraído” (V carta). Coloca-a num patamar superior porque para ele, Sandra não era “da ordem finita de se ser” (VII carta) e ao escrever-lhe, almeja “transpor a enorme distância que ia da minha condição terrestre à tua sacralidade e para lá dela ao teu corpo.” (IX carta), pois “como uma deusa que estivesse de passagem, jamais te falei assim porque tu ignoravas o que havia em ti de transcendência e querias que não houvesse e eu fosse mais quotidiano e talvez te magoasse.”… “desespero de relembrar quanto te amei para além de ti e quanto tu querias que não. Decerto a tua divindade perdeu-se no nosso uso mútuo dos dias e para sempre se manteve.” (IX carta). “O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação.” (VII carta)

Para além da aldeia natal com vista para a serra, aldeia de que Sandra não gostava, são as recordações de Coimbra, das suas ruas, das baladas coimbrãs em dia da Queima das Fitas quando jovens universitários as referências que nos são dadas ver nestas cartas. O céu em dias de sol abrasador ou a escurecer com a chegada da noite, as noites frias e solitárias de Inverno, a grande figueira à porta de casa são o pano de fundo dos pensamentos saudosos de Paulo na “luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.” (V carta)

Um livro belíssimo, poético, para ser lido devagar. Como o amor, sem pressas.

Com a urgência de reler “Para Sempre”.

29 de Novembro de 2020

 

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