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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

As Sombras de Leonardo da Vinci

30.08.19, Almerinda

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As Sombras de Leonardo Da Vinci, Christian Gálvez, 2014

 

Não é fácil escrever sobre este livro. Identificado como “romance histórico” “fruto de vários anos de investigação exaustiva sobre a vida de Leonardo da Vinci”, não consegui abstrair-me de um certo preconceito relacionado com jornalistas que se tornaram verdadeiras estrelas pop depois de terem começado a escrever livros apoiados em grandes campanhas de marketing que fazem com que os seus livros passem a figurar durante semanas nas montras das livrarias e no top de vendas! Talvez seja mesmo só preconceito. Sobre o autor, Christian Gálvez, na badana do livro pode-se ler que “Desde 2009, divide-se entre o trabalho em televisão e a investigação sobre Leonardo da Vinci, vivendo entre Madrid e a Toscana. É um dos mais conhecidos especialistas internacionais do artista.” Também na capa, o leitor é alertado para o conteúdo do livro que vai fazer sobressair a faceta do homem, mais do que a do génio.

Quem não sabe que Leonardo da Vinci foi genial? Que imaginou máquinas e inventou engenhos que só vários séculos depois da sua morte foram realizados? Que as suas pinturas são obras de arte que atraem milhões de visitantes de todo o mundo? Que utilizou técnicas pioneiras e que, embora tendo vivido num período de grande incentivo e apoio às artes, se distinguiu de todos os seus pares por ser o maior? A sua genialidade foi objecto de estudo de especialistas e de produção de milhares de obras sobre a sua arte e dimensão multidisciplinar.

Mas a sua figura como pessoa e a interpretação de algumas das suas obras têm sido objecto de imensas teorias e controvérsia. Daí, ter sentido a necessidade de, ao ler “As Sombras de Leonardo da Vinci” de Christian Gálvez, confrontar informação com outros livros sobre Leonardo da Vinci. Reconheço que a parte material e visível da obra é bem mais fácil de ser trabalhada do que a personalidade, os sentimentos e atitudes de um homem que viveu 67 anos e cuja vida foi marcada por traições, desafios e vicissitudes, mas uma energia fora do vulgar que fez dele também um sobrevivente.

O início do livro situa-se em 1519 no dia 2 de Maio, data da sua morte, em França, na região do Loire onde viveu os últimos três anos da sua vida, a convite do rei de França, Francisco I. É a cena da morte, onde está acompanhado do rei e das pessoas que lhe são mais queridas, cena essa a que voltaremos no final do livro. Nascido da relação ocasional do pai, um importante notário de Florença, com Caterina uma jovem escrava, esse nascimento não desejado pelo pai marca-o, ao contrário do amor que a mãe lhe devota, mesmo quando o acompanhamento do seu crescimento e educação lhe são impedidos e o afastamento do filho lhe é imposto.

Os diversos capítulos que constituem o livro e que não surgem por ordem cronológica são cenas da vida de Leonardo da Vinci, em criança, na oficina do mestre Andrea Verrocchio, nos calabouços do Palazzo del Podestá em Florença, na sequência duma acusação anónima de homossexualidade, na sua oficina, em Florença, na Abadia de Montserrat, em Milão, Roma ou em França. A desenhar, a projectar, a planear, a dissecar cadáveres, a inventar, a experimentar, a estudar, a “voar”.

As rivalidades entre as oficinas dos artistas, a Europa em mudança, a Península Itálica dividida, as guerras entre os Médici, a Igreja e os papas, o nepotismo reinante, as teorias e os protagonistas que queriam reformar a Igreja de Roma, os encontros e desencontros, amizades e inimizades com outros artistas da época (Sandro Botticcelii, Michelangelo, Rafael, Maquiavel) tudo isto nos dá este livro do escritor madrileno. Um romance histórico documentado no final do livro com uma listagem exaustiva das personagens do romance, dos papas, dos Médici e dos Sforza que reinaram em Roma, Florença e Milão durante o período de vida de Leonardo da Vinci, assim como os reis de Espanha e de França do mesmo período.

Se Leonardo da Vinci conseguiu salvar Lorenzo de Médici do atentado dos Pazzi, lançando-se da cúpula de Santa Maria del Fiore para a Piazza della Signoria e assim usando pela primeira vez a sua máquina voadora; se Leonardo da Vinci conseguiu escapar da fogueira de Girolamo Savonarola lançando-se ao rio Arno e usando o seu escafandro que o impediu de morrer afogado; se Leonardo da Vinci se vingou dos três torcionários que o torturaram quando ele esteve preso acusado de práticas homossexuais; se Leonardo da Vinci viveu em Barcelona (Abadia de Montserrat) antes de ir para Milão; se a explicação que Francesco Melzi deu ao rei de França sobre o quadro de Mona Lisa corresponde ao pensamento e intenção de Leonardo da Vinci ao pintá-lo é a verdadeira…

Tantos “ses”! As minhas dúvidas.

A minha certeza: Leonardo da Vinci foi um homem genial, o símbolo maior do Renascimento, alguém com uma capacidade muito superior ao comum dos mortais, sempre a querer superar-se.

“O difícil consegue-se, o impossível tenta-se.”

 

29 Agosto, 2019

Almerinda Bento

 

 

 

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