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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

A um Deus Desconhecido

17.12.19, Almerinda

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A um Deus Desconhecido, John Steinbeck, 1933

A escolha deste mês do Clube de Leitura da Bertrand do Chiado recaiu em John Steinbeck e na sua obra. De entre os muitos títulos deste autor que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1962, a ideia era trazer a diversidade dos temas a partir das escolhas que cada membro do clube decidisse fazer. Daquilo que li em tempos remotos quando estudante de Literatura Norte Americana, certamente constava Steinbeck, mas a verdade é que qualquer lembrança se perdeu na memória. “A um Deus Desconhecido” foi o que encontrei na minha biblioteca na zona da literatura estrangeira e foi isso que partilhei na roda de conversa do nosso clube.

Um livro perturbador, em que o centro é a natureza, a terra e a relação dos humanos com ela. Joseph Wayne é jovem e tem a ambição de ter terra própria. Parte para oeste, para a Califórnia, onde há grandes extensões de território à espera de quem lá se queira fixar. Joseph deixa o pai por quem tem uma forte ligação e os três irmãos e respectivas famílias. Escolhe para se estabelecer, construir casa e criar raízes um largo vale verdejante e promissor, embora desde logo o tenham alertado que nem sempre foi assim, visto ter havido em tempos uma seca terrível que queimou e deixou tudo seco. Nesse vale começa a construir próximo de um grande carvalho que, para ele, corporiza o pai, como se o pai o habitasse. Essa sensação vai tornar-se cada vez mais forte após a notícia da morte do pai. Chama os irmãos para junto de si, desejoso de partilhar com eles o sonho de poderem viver e partilhar aquela terra fértil. Sendo todos muito diferentes, a figura de Joseph é, no entanto, central e respeitada, porque comporta em si as semelhanças com a personalidade do patriarca. Burton, obcecado pela religião, é sectário, moralista e não aprova Joseph que considera estar dominado pelo diabo e ter práticas pagãs pelo seu relacionamento com o carvalho. Thomas é duro, frio, mas tem uma sensibilidade especial para se relacionar com os animais da quinta. Benjamim leva a vida sem limites, escolheu viver de forma irresponsável. Os irmãos são casados, têm mulheres e filhos e Rama, mulher de Thomas, surge como figura feminina forte, sendo a conversa que tem com Elizabeth ao descrever-lhe Joseph, reveladora da centralidade de Joseph na família, que ela cosidera estar mais perto dos deuses do que dos humanos.

“Ignoro se há homens nascidos fora da Humanidade, ou se alguns deles são tão humanos que fazem os outros parecer irreais. Talvez uma divindade venha viver para a Terra, de vez em quando. O Joseph possui força sob uma visão confusa, tem a calma das montanhas e as suas emoções são tão selvagens, ferozes e vivas como os relâmpagos, e tão destituídas de racionalidade quanto eu me possa ter apercebido. Quando estiveres longe dele, tenta pensar nele e verás o que quero dizer com isto. A sua figura crescerá até se tornar enorme, até ser maior que as montanhas, e a sua força parecer-se-á com o irresistivel impulso do vento. O Benjy morreu. Não se consegue conceber o Joseph a morrer. Ele é eterno. O seu pai morreu e isso não foi bem morrer. (…) Garanto-te que esse homem não é um homem, a não ser que seja todos os homens. A força, a resistência, o longo e laborioso raciocínio de todos os homens, e também toda a alegria e sofrimento, anulando-se um ao outro e mantendo-se contudo presentes. Ele é tudo isso., um repositório de um pedacinho de cada alma humana e, mais que isso, um símbolo do espírito da Terra.”

A ameaça de uma possível seca, os receios da noiva de Joseph quando atravessa o desfiladeiro a caminho da casa no vale, a energia negativa que se sente na clareira rodeada por pinheiros, e o rochedo coberto de musgo verde são os sinais de alerta que pairam ao longo do romance. As lendas dos naturais da região, dos índios e dos mexicanos que há muito habitam a região têm uma aura de mistério, de superstição e fatalismo que não deixam de fazer prever algo de funesto e imprevisível que fará quebrar o aparente equilíbrio e estabilidade. A pujança da Natureza presente naquele vale e que se reflecte nas colheitas fartas, nos estábulos cheios de feno e nos animais domésticos que se reproduzem a bom ritmo, marca os ciclos da vida e das estações ao longo de anos, bafejados pela abundância vital da água. Até ao dia, quando se descobre que Burton havia matado o carvalho antes de partir e abandonar o vale, em que a desgraça vai cair no vale, nos animais, na família e em toda a região. A partir de então é o declínio e a morte. Falta a água e é o desespero. Joseph é a terra. Joseph é a Natureza. A morte é inevitável.

Um livro repleto de espiritualidade, onde a Natureza tem o papel central. Impressiona. Mexe com quem o lê.

16 de Dezembro de 2019

Almerinda Bento

 

 

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