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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

“A Mulher que correu atrás do Vento”

12.03.20, Almerinda

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"A Mulher que correu atrás do Vento" , João Tordo, 2019

 

Um romance longo, talvez até demasiado longo, constituído por partes datadas, distantes no tempo, mas que se encaixam e formam um puzzle de muitas peças. Tal como os puzzles, tem zonas mais difíceis de completar, outras mais fáceis, peças enganadoras, personagens sobreponíveis e às vezes, quando pensamos que já estamos a chegar ao fim e temos o puzzle resolvido, há um volte face e percebemos que afinal aquele desfecho do puzzle estava errado. O que é romance? O que é fantasia? O que é realidade? O título do livro e a epígrafe, retiradas do Eclesiastes «Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento» são a chave deste romance que tem o vento lá dentro.

No longo posfácio, Beatriz, a narradora, dirige-se a quem a está a ler, como que se explica e escreve a certa altura (p. 428) “Qual é o interesse de uma narrativa? Sobretudo de uma narrativa como esta, que já vai longa e confusa, dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias? … Chego à conclusão de que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que deveria ser.” E à pergunta de Luciano sobre o que ela anda a traduzir/escrever, ela reflecte: “Como podia eu explicar-lhe isto, se não com a enorme perda de tempo de que falava Luciano, esta compulsão inútil de que padecem os escritores, aqueles que escrevem mesmo que ninguém os leia, os que escrevem porque, se não o fizerem, continuarão a correr infinitamente atrás do vento? O tempo perdido de que falava Luciano é a coisa mais importante que existe.” (p.431) Quando no último dia de trabalho no escritório de advogados, Luciano quis saber o que Beatriz ia fazer do resto da sua vida, ela respondeu-lhe: “Vou escrever um livro. Ele riu-se com a sua boca de parvo e perguntou-me sobre o que era. E eu respondi que aquela pergunta era a mais ridícula de todos os tempos, porque os livros não eram sobre nada, nunca ninguém escreveu um livro sobre coisa nenhuma. Os livros eram sobre si mesmos, disse eu, sobre o próprio acto de os escrevermos.” (p. 435). Mas, mais à frente, a narradora dirige-se-nos a nós, leitores/as: “Então chega o momento em que eu explico a razão deste livro, que não é sobre o que foi, mas sobre o que poderia ter sido.” (p. 436)

“A Mulher que correu atrás do vento” é um livro sobre a culpa, o remorso, o abandono, a solidão. Um livro que quer resgatar a memória de alguém que ninguém recorda, de alguém que passou pela vida sem ser amado e que partiu cedo de mais. Uma sem-abrigo a quem as instituições não têm a obrigação de dar cama, quando atingem a maioridade. Uma sem abrigo a quem as instituições dão um banho, uma refeição e uma muda de roupa lavada. Lia. Lia poderia ter sido uma mulher com casa, afecto e dignidade.

Beatriz lutava desde o seu tempo de estudante universitária  com a tradução de “Ulisses” de James Joyce, ao mesmo tempo que se divide entre gostar e odiar “A História do Silêncio”, um bestseller na época. Carrega a sua bagagem livresca e literária, não se poupando a referências a personagens que se colam às personalidades das personagens do livro, como por exemplo Lisbeth Lorenz ou Graça Boyard, a Violet Venable de Subitamente no Verão Passado de Tennessee Williams. “A Gaivota” de Tcheckov, a obra de Munch ou de Kafka, os escritores malditos Rimbaud, Baudelaire ou Bukowski, “Crime e Castigo” e os clássicos russos, “Um Eléctrico Chamado Desejo” de Tennessee Williams, ou mesmo o filme “Filhos de um Deus Menor”, entre muitos outros, surgem ao longo das páginas do romance e obrigam-nos a que os revisitemos ou conheçamos, para uma melhor compreensão das inúmeras personagens deste extenso romance de João Tordo.

Termino com mais uma citação que considero pertinente e ajustada ao romance: “As coisas começam num lugar distante no tempo e na geografia e, depois, parecem repetir-se infindavelmente, tal qual um relógio cujos ponteiros atravessam a mesma hora todos os dias. Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos, das mesmas esperanças.”

Mouriscas, 24 de Fevereiro de 20

 

 

 

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