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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Anos de Brasa - Contos e Outros Escritos, 2025

28.01.26, Almerinda

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“Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” – Luís Farinha, 2025

Tal como diz o título, “Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” é constituído por um conjunto de dez pequenos contos, seguido de textos sobre personagens marcantes da nossa história recente e com ligação ao período revolucionário do 25 de Abril. É um livro denso, muito abrangente no retrato da sociedade portuguesa no período do 25 de Abril, assim como no que o antecedeu e nos anos seguintes. Dá-nos a perspectiva da complexidade desse período único que a nossa geração viveu e protagonizou. Daí o interesse de o trazer a este público que na altura teria entre os vinte e os trinta anos, como memória, mas também como testemunho num tempo de recuo nos direitos que estamos actualmente a viver, lembrando-nos que os direitos conquistados têm de ser preservados pois a sua existência não é um dado adquirido. E se hoje, para os jovens, é com estranheza e até incredulidade que escutam relatos do que era a ditadura e a vida antes do 25 de Abril, “Anos de Brasa” é um testemunho real a necessitar de ser divulgado.

Como se lê no prefácio de Maria Helena Ventura, o 25 de Abril de 74 foi “O confronto quase mítico dos oprimidos com o nada … e o quase tudo, na abertura de múltiplas perspectivas de futuro, … no desesperado anseio de bens essenciais por um proletariado exausto, contra a negação dos que temiam perder privilégios e se agarravam a um passado de 48 anos.”  E acrescenta que o “… povo que, não sendo uma massa homogénea, estava irmanado no despojamento de condições básicas de vida. E de repente, como se levantado do chão pelos braços dos mais fortes, afagava a decisão de obter iguais liberdades para a sua diversidade,” (pág. 7). O desafio era imenso: mudar a vida, mudar mentalidades e lutar contra os saudosistas, sem contar com o receio de represálias que se tinha incrustado ao longo de 48 anos de repressão e medo.  A energia que irrompeu, nunca antes vista, fez nascer uma coragem colectiva, um criar laços, um transformar os sonhos em realidade, não sem contradições, que constituíram esses “anos de brasa” que aqui nos traz Luís Farinha.

Num tempo em que o analfabetismo em Portugal era uma vergonha, sobretudo entre as mulheres e nos campos, foram as jornadas de alfabetização as primeiras acções que levaram centenas de jovens por esse país fora a descobrir esse mundo esquecido de tantas pessoas que só queriam saber escrever o seu nome para deixarem “a vergonha de ter o dedo no cartão de identidade” (pág. 20). O primeiro conto intitulado “Se tivesse durado mais algum tempo…”  mostra-nos quanto esses jovens – o “bando” – aprenderam (porventura mais do que ensinaram!) confrontando as suas teorias, os seus saberes académicos com a realidade, com a desconfiança, com os preconceitos e com o caciquismo viesse ele da igreja, ou de casa.  O grupo, sobretudo de alunas, “vinha à escola como se fosse dia de festa” com um objectivo muito prosaico: saber escrever o seu nome. “Ninguém estava ali para chegar de imediato às estrelas, talvez apenas para nascer com o dia e ver crescer na horta o fruto com que se dá de comer aos filhos.” (pág.25)

As revoluções, mesmo as que são feitas com cravos, são sempre momentos de profundas transformações e todos estes contos nos trazem essas memórias. O surgimento de partidos e organizações, antes na clandestinidade, trouxe ao de cima as diferenças ideológicas, o confronto entre grupos, estudantes e operários com as suas reivindicações, o radicalismo de quem esperou tanto tempo e agora queria tudo e já, o boicote e a sabotagem de quem não queria perder privilégios nem poder, a generosidade e o entusiasmo de quem queria mudar o mundo e o cepticismo de quem achava que “o mundo é feito de ricos e pobres.  Sempre foi assim e sempre será!” Nas revoluções, mesmo as que foram feitas com cravos, a luta de classes não deixa de existir. Antes fica mais acesa.

“Casas sim! Barracas não!” quem não se lembra desta palavra de ordem? Tão actual nos dias de hoje, passados quase 52 anos de Abril. O direito à habitação como direito básico gera um movimento muito forte, com grande mobilização das mulheres, nas ocupações de casas devolutas. Também dessa altura, assiste-se à construção de casas da noite para o dia, só possível graças à solidariedade e entreajuda dos moradores, num tempo em que a força do povo conseguia mover montanhas e responder a necessidades básicas. Também aqui o associativismo através da constituição de Comissões de Moradores foi o impulso para enormes transformações ao nível das infraestruturas, acessíveis de forma assimétrica e muito rudimentar no todo nacional. Nas escolas, pela primeira vez, substituem-se os reitores, muitos coniventes com o antigo regime e experimenta-se a gestão democrática partilhada, enfrentando-se o gigantesco desafio de pensar a escola como bem público aberto a todas as crianças e jovens, independentemente das posses dos pais. Cometeram-se erros? Certamente, mas abriu-se a escola a todos e deram-se os passos essenciais para implantar a Escola Pública como uma das grandes conquistas que depois a Constituição inscreveu como direito fundamental.

A luta estudantil que tinha começado a ter expressão com o eclodir da guerra colonial, intensificou-se com a morte de Salazar e com o marcelismo que, ao contrário do que era expectável, não só não diminuiu a repressão, como a aumentou. Luís Farinha traz em “Anos de Brasa” as incursões da polícia de choque nas universidades e o intensificar da resistência estudantil que lutando contra os bufos e a ausência de liberdade de expressão, se mobiliza abertamente contra a guerra colonial. As tertúlias de intelectuais oposicionistas, as salas míticas de cinema e os cineclubes, alguns poucos professores que se distinguiram na época como o Padre Manuel Antunes, as leituras censuradas e proibidas que eram partilhadas, a morte do estudante Ribeiro dos Santos, todo esse caldo fervia e um dia permitiu a adesão popular massiva que levou o Povo a aprender rapidamente a falar nas assembleias e decidir sobre os seu destino.

Mas nada é linear e a história também não se faz sem sobressaltos, sem contradições, sem desilusões, sem cortes. O sonho da utopia e os caminhos para lá chegar eram diversos e desde cedo se percebeu que a alegria daquele 1º de Maio em que todo aquele mar de gente corria todo para o mesmo lado, não ia durar sempre. Para avançar na revolução era preciso acabar com privilégios, tirar o poder a quem sempre fora único dono e senhor. As nacionalizações e sobretudo a reforma agrária eram medidas demasiado avançadas para poderem resistir. Muitos problemas sociais subsistiram apesar das muitas leis que pela primeira vez deram direitos fundamentais a quem nunca os tinha vivido. Portugal abriu-se ao mundo, aderiu à CEE, acreditou que o fosso que nos separava do mundo iria diminuir. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS constituiu para muitos o fim do tempo da utopia. Muitas certezas se desmoronam com a queda do muro, ao mesmo tempo que o individualismo vai paulatinamente substituir o espírito colectivo agregador que tinha irmanado tantos no sonho de um mundo mais igual e mais justo para todos.

A segunda parte de “Anos de Brasa” traz aos leitores testemunhos de conversas entre o estudioso, o historiador Luís Farinha e importantes figuras com relevo na construção deste período revolucionário. Emídio Guerreiro, exilado durante 42 anos, que considerava que tinha tido uma segunda vida aos 75 anos quando ocorreu o 25 de Abril. Homem duma energia e têmpera notáveis morreu com 105 anos em 2005. Não deixava ninguém com dúvidas quando afirmava que nunca tinha sido do PSD, mas sim do PPD.

António Borges Coelho com quem Luís Farinha fez um percurso enquanto aluno, enquanto parceiro nos corpos directivos do Museu do Aljube e enquanto parceiro na produção e divulgação da História em Revistas com o foco na memória da resistência. Homem vincadamente de esquerda, foi inovador em todos os campos a que dedicou a sua inteligência e conhecimento.

Álvaro Cunhal, personagem mítica, amado e odiado, que transformou a programada entrevista de meia hora em cinco horas de conversa. Afinal, aquele poço de sabedoria, o mítico secretário-geral era mesmo inacessível?

José Medeiros Ferreira que no 3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, defendeu uma tese inovadora que um ano depois o MFA parecia decalcar. À teoria dos 3D como ficou conhecida – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – Medeiros Ferreira acrescentou - Socializar. Medeiros Ferreira ambicionava Portugal soberano, fora do controlo quer dos EUA quer da União Soviética.

O livro de José Saramago “Levantado do Chão” e o excelente roteiro que foi concebido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo para dar a conhecer essa obra merece destaque nos “Anos de Brasa”. E cito: “Roteiro também para os leitores de Saramago e para muitos outros que hão-de começar a sê-lo se perceberem que a literatura, a verdadeira literatura, não é um devaneio deleitoso para entretenimento de ociosos, mas antes uma leitura profunda da vida para compreender e transformar o mundo.” (pág. 176)

Termina Luís Farinha esta sua lição de história com a referência a Manuel Francisco Rodrigues, professor e tradutor, um pacifista, naturista, adepto do vegetarianismo, considerado pela polícia política um “perigoso anarquista”, preso em 1940 quando entrou em Portugal vindo de Espanha. Passou pelo Aljube e pelo Tarrafal. A singularidade das suas ideias e pensamento sempre foram difíceis de serem entendidos por quem com ele lidou, sendo frequentemente considerado lunático. Reabilitado em 1963, voltou a exercer a sua profissão docente em Chaves.

Termino mais uma vez agradecendo a Luís Farinha esta sua incursão na literatura, trazendo-nos este retrato dum tempo que mudou o rumo da nossa história recente e que marcou a nossa juventude.

(Este texto consistiu na apresentação que fiz do livro "Anos de Brasa de Luís Farinha na sessáo do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, que contou com a presença do autor)

28 de Janeiro de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

 

 

"Chuva de Jasmim", Shahd Wadi, 2025

16.01.26, Almerinda

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Chuva de Jasmim

Na contracapa de “Chuva de Jasmim” leio as palavras de Alexandra Lucas Coelho: “Este será o primeiro livro palestiniano da poesia portuguesa. Ou vice-versa? Shahd Wadi fez de Portugal a sua morada – até que ir para casa seja possível. Enquanto a Palestina estiver ocupada, o mundo é a Palestina”.

Autora de várias obras de que destaco “Corpos na Trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio”, em resultado da primeira tese de doutoramento em Estudos Feministas em Portugal pela Universidade de Coimbra em 2013, foi recentemente nomeada Escritora Universal Galega 2025.

É uma responsabilidade muito grande ter hoje a tarefa de apresentar o mais recente livro da Shahd. Eu que nunca me aventurei a escrever sobre poesia, serei breve, muito breve. Mas a minha amizade já antiga com esta mulher feminista, que ainda por cima carrega em si o facto de ser palestiniana, não me permitia recusar estar aqui com a Shahd a tentar dar o meu melhor.  Judite Fernandes, nossa amiga comum e que fez o prefácio do livro escreve que “Chuva de Jasmim é um livro sobre tudo, sobretudo, é um livro de poesia” e porque este livro respira denúncia, resistência e esperança, Judite lembra-nos que a Palestina é “um país que está a ser apagado do mapa, um país que existe por milagrosa resistência”.

À medida que se folheia e se vai lendo “Chuva de Jasmim”, sente-se a urgência da poesia em Shahd. Ela faz poesia, arte como forma de resistência, como grito de liberdade. Ela que escolheu “viver na terra do mais ou menos”, que não nega algum desconforto com a língua, a tropeçar às vezes nalgumas palavras, é, no entanto, hábil a brincar com as palavras, a criar lenga-lengas “Tráfico Humano” (pág. 61), a provar-lhes as subtilezas, conseguindo ser doce e corrosiva, tendo o condão de trazer a poesia para o quotidiano. Quando lemos “O Mesmo Poema” (pág. 37) que abre o capítulo A Casa percebemos que o poema é o quotidiano.

Os próprios títulos dos poemas são abertos e convocam-nos á inquietação que Shahd logo nos traz no primeiro poema intitulado “Lado a Lado”: “Entrego-vos a minha inquietação do nada/ para que se torne nossa. Palavra dita/escrita/ nunca é em liberdade” (pág. 15). Mas é no último capítulo do livro, intitulado “Chuva de Jasmim” que os poemas me sugerem palavras-chave bem nítidas como “Morte”, “Genocídio”, “Palestina”, “Revolução”, “Resistência”, “Raiva”, “Esperança”. Em “Alucinações sobre flores meio ano depois” (pág. 82) com um cravo na mão descemos a Avenida da Liberdade a gritar 25 de Abril Sempre, Fascismo nunca mais! Mas também:

Huri-ía! Falastin árabiya sempre, sionismo nunca mais!

Em solidariedade, em sororidade, Shahd oferece-nos esta Chuva de Jasmim, porque ela acredita que juntos, juntas temos a capacidade de um dia haver chuva de jasmim!

14 de Janeiro de 2026

(Este texto foi apresentado no âmbito da iniciativa O SPGL na Luta pelos Direitos dos Palestinianos na sessão com o título Cultura e Informação como Meios de Luta do Povo Palestiniano)

"Gaza Está em Toda a Parte", Alexandra Lucas Coelho

15.01.26, Almerinda

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“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”.

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas.

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino.

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”.

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025

Almerinda Bento

“Inyenzi ou As Baratas” – Scholastique Mukasonga, 2006

06.01.26, Almerinda

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“Inyenzi ou As Baratas” – Scholastique Mukasonga, 2006

Quando li num blogue que sigo uma apreciação sobre “Inyenzi ou As Baratas” e percebi que se tratava de um relato de uma sobrevivente do genocídio do Ruanda, logo o pus na lista de livros a ler. Tive uma ligação ao Ruanda breve, mas inesquecível. Em 2004, a Marcha Mundial das Mulheres a cuja coordenação nacional pertencia, escolheu o Ruanda para aí se realizar o 5º Encontro Internacional, com o objectivo de preparar a 2ª Acção Global e, sobretudo, concluir a discussão e aprovação do texto final da Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. O local teria de ser marcante e assim, foi escolhida Kigali a capital do Ruanda, no ano em que se assinalavam os dez anos do genocídio que matou perto de um milhão de ruandeses de etnia tútsi. Para além de querermos conhecer mulheres que tinham sobrevivido àquele tempo tão atroz, queríamos estar perto de associações que se tinham formado para apoiar na reconstituição e na cura das feridas deixadas pela luta fratricida entre etnias. E também, mostrar a solidariedade de mulheres de todo o mundo para com o imenso esforço que as ruandesas estavam a fazer para se levantar e levantar o país dos escombros do genocídio.

“Inyenzi ou As Baratas” é um livro duríssimo que me obrigou várias vezes a parar, respirar fundo e deixar a leitura. Aproveitei para ir buscar o álbum e rever algumas fotografias que fiz em Kigali, nomeadamente do Memorial do Genocídio que visitei e que é impossível esquecer. Tal como os nazis achavam que os judeus eram untermensch (infra-humanos), os sionistas acham que os palestinianos não são gente, os hútus consideravam os tútsis baratas (inyenzi), uma etnia que tinha de ser esmagada. O genocídio que aconteceu no espaço de três meses em 1994, como nos é contado neste livro, tinha começado há muitos anos a ser preparado. É sobre isso que escreve Scholastique Mukasonga, nomeando toda a sua família morta e muitos dos habitantes e vizinhos apanhados na fúria assassina daqueles cerca de cem dias. Ela quis nomeá-los repetidamente, começando logo na dedicatória, lembrá-los, já que não há uma lápide que os lembre, podendo as suas ossadas estar na cripta da igreja de Nyamata, ou terem sido atirados para uma vala comum, ou mesmo terem sido comidos pelos cães ou pelas feras.

Scholastique Mukasonga vive em França. Tinha apenas 3 anos quando ela, irmãos, irmãs e pais foram forçados a um primeiro exílio em 1959, enviados compulsivamente para Gitwe, um lugar inóspito no mato, onde passaram imensas privações, desde fome, falta de água e constante receio dos animais selvagens, embora ela refira que descobriu que a crueldade dos humanos supera o perigo dos animais selvagens. Em 1962, aquando da independência do Ruanda, mais de 150 mil tútsis tiveram de fugir para países vizinhos, tendo nessa altura ocorrido milhares de mortos. As tensões entre hútus e tútsis, instigadas desde sempre pelo poder colonial belga, acentuaram-se após a independência e o mundo fingiu não ver. Destacou-se em 1964 a voz solitária de Bertrand Russell a denunciar o genocídio e a lembrar o que os nazis tinham feito aos judeus. Os pais de Scholastique Mukasonga fugiram com a família para Gitagata, sua última morada, lugar onde iriam ser assassinados em 1994. “Não havia dias tranquilos em Nyamata. Os militares do campo de Gako faziam questão de nos recordar constantemente o que éramos: serpentes, Inyenzi, essas baratas que nada tinham de humano e um dia seria preciso dizimar. Enquanto isso não acontecia, o terror era sistematicamente organizado.” (pág. 65). O único lugar seguro era a igreja da missão, hoje transformada em memorial do genocídio, onde foram depositados milhares de ossadas.  No entanto, a narradora não deixa de referir os dias felizes da sua infância quando ficava com a mãe, que lhe contava histórias. A criação do partido único e a organização da juventude partidária vão fazer aumentar significativamente a violência e as tensões. As violações das meninas são uma constante.

A educação e o acesso aos graus superiores do ensino eram uma miragem para a etnia tútsi, mas foi o sucesso na escola que lhe permitiu ser uma sobrevivente. O exame nacional de acesso ao ensino secundário era uma das mais importantes barreiras, tanto mais que a quota de acesso aos tútsis se ficava nos 10%.  No entanto, Scholastique Mukasonga conseguiu ser a única na sua aldeia que passou no exame e teve acesso ao melhor liceu de Kigali, onde resistiu durante 3 anos, sujeita a humilhações e a uma rejeição constante por parte das colegas e das professoras. Só no terceiro ano conseguiu deixar de andar descalça e os seus traços fisionómicos e cabelo volumoso eram para ela motivo de frequentes humilhações. Seguiu-se o acesso à Escola de Assistentes Sociais em Butare, uma experiência mais aberta e menos excludente que só durou dois anos e que teve de ser interrompida abruptamente com a mudança da direcção da escola. Os pais, cientes da tragédia que os perseguia, escolheram que para sobreviverem, Mukasonga e André teriam de partir para o Burundi para continuarem os seus estudos. Refugiados no Burundi, Scholastique Mukasonga obtém o seu diploma de Assistente Social e André vai estudar Medicina.

É em 1986 que Mukasonga vê os pais pela última vez. Nessa altura ela já tinha a cidadania francesa, era casada com um francês e tinha 2 filhos. Os projectos de desenvolvimento rural da UNICEF e outros tinham levado o casal do Burundi, para o Djibuti. André era médico num hospital no Senegal. Das cinco raparigas e dois rapazes que Cosma e Sefania tinham tido, só André e Mukasonga foram poupados ao genocídio. Mukasonga, na sua casa em França, tem pesadelos constantes. Impossível esquecer o que passou e deixar de imaginar o que terá sido o horror vivido pelos 37 familiares que se encontram na fotografia do casamento de Jeanne, a irmã mais nova, todos eles mortos. André e ela são os sobreviventes. Ou não serão antes os “subviventes” como ela própria diz?

Da comuna de Nyamata, dos 60 mil tútsis recenseados em Janeiro de 1994, sobreviveram 5348. O genocídio foi o corte das amizades, das relações, algumas com muitos anos. O que aconteceu foi puro sadismo, loucura, fria crueldade. Foi com extrema dificuldade que Scholastique Mukasonga voltou a Nyamata, dez anos depois, para tentar encontrar vestígios dos sítios onde ela tinha vivido com os pais. Apenas descobriu ali “o país dos mortos” (pág, 149). “Comecei a sentir um ódio violento por aquela vegetação descontrolada que tão bem finalizara o «trabalho» dos assassinos, que transformara a minha casa num matagal hostil”. (pág. 162). Os poucos habitantes que encontra refugiam-se num discurso de negação, falam em “acontecimentos infelizes” (pág. 17), incapazes de usar a palavra genocídio. “A memória de todos aqueles mortos ficava a meu cargo: eles acompanhar-me-iam até à minha própria morte” (pág. 122). “Os assassinos quiseram apagar-lhes até a memória, mas, no caderno escolar que me acompanha sempre, inscrevi os seus nomes, e não tenho para os meus e todos os que tombaram em Nyamata senão este túmulo de papel”. (pág. 166)

Termino, citando do Posfácio, as palavras de Boniface Mongo Mboussa, congolês, académico e professor de literatura: “Em “Inyenzi ou As Baratas” Scholastique Mukasonga oferece-nos um relato autobiográfico valioso, um documento que nos permite ver por dentro o Ruanda pós-colonial (…) que nos mostra, a partir de uma sucessão de factos, porque é que o genocídio era – infelizmente, tão infelizmente – inevitável”. (pág. 173).

5 de Janeiro de 2026

Almerinda Bento