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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

Autobiografia de uma Mulher Romântica, Natália Nunes

18.08.25, Almerinda

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“Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954

 

Há muito que desejava conhecer a obra de Natália Nunes, tendo apenas referências através de dois cursos online que frequentei sobre escritoras portuguesas desconhecidas. Mesmo em bibliotecas públicas é difícil aceder à obra desta escritora nascida em 1921. No entanto, sabia da paixão de Teresa Sousa de Almeida pela obra desta escritora, tendo-a estudado de forma intensa a aprofundada. “Autobiografia de uma Mulher Romântica” que encontrei na livraria Snob, um romance escrito na primeira pessoa, é prefaciado por Teresa Sousa de Almeida, que o caracteriza como “obra única pela sua estrutura formal e pela complexidade psicológica da sua narradora” que encontra “a escrita como única tábua de salvação”.

Clotilde, a narradora, começa por falar da chuva naquele dia em que chegou “à terra do exílio” (pág. 21) que lhe faz recordar um outro dia marcante, de chuva inclemente de que só saberemos no final do romance. Ela está num quarto de pensão numa Vila, onde irá dar aulas de alemão num colégio da terra.  A viver um momento de dor profunda, logo se percebe que essa dor não decorre da sua viuvez recente, mas de uma paixão posterior não correspondida.

Enquanto não começam as suas aulas que só se iniciarão uma semana depois, aproveita para passear pela aldeia de pescadores, passear pelas dunas e ver o mar, tentando obter serenidade através do contacto com a natureza. Desde o início, o/a leitor/a segue as descrições minuciosas da paisagem, da vida vegetal e animal, e as reflexões que acompanham a narradora ao longo desse percurso. No tempo livre de que dispuser vai recordar a infância, o papel da austera avó Gracinda com quem viveu nos seus primeiros anos de vida e da preceptora Charlotte, uma mulher livre que sempre a aconselhou “a seguir sempre os seus impulsos” (pág. 98). “Talvez devesse aproveitar as horas livres que me vão surgir, para fazer aquilo que se chama um exame de consciência, para dirigir um olhar perscrutador a todo o meu passado, contemplar numa visão retrospectiva o caminho que já percorri e me trouxe assombrada e desolada a este exílio…” (pág. 76)

Desde sempre a ligação que estabeleceu desde nova com a natureza na aldeia da avó trazia-lhe uma sensação de plenitude a que se seguia um sentimento de insatisfação e até desespero, sendo que os sentimentos de incompletude e frustração caracterizaram as suas primeiras experiências sentimentais, que a levaram a isolar-se, sentindo que era “esquisita”. 

Clotilde não se enquadra no modelo tradicional que a avó Gracinda e a tia Constância queriam para ela e para as primas, que era final o caminho asfixiante da sujeição aos padrões da docilidade e da domesticidade que estavam reservados para as mulheres como esposas e donas de casa e não como pessoas com autonomia e vontade própria. Apesar do breve período da sua vida que correspondeu a um curto noivado e casamento e em que existiu um certo apaziguamento que a leva a seguir as convenções e as normas impostas socialmente, Clotilde confessa “Eu tinha uma tendência para complicar a vida!” (pág. 167), à felicidade segue-se o tédio, a vontade de fugir. Foi em Filipe que ela viu pela primeira vez uma vida com sentido, alguém cuja “passagem pela vida” era “significativa e útil”. (pág. 173)

Como escreve Teresa Sousa de Almeida no prefácio (pág. 12) “as heroínas de Natália Nunes, apesar de todas as vicissitudes, encontram sempre o seu caminho” e Clotilde, a terminar o romance decide regressar às serras da sua infância e diz: “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”

Um romance escrito por alguém com profundo domínio da língua, usando vocabulário rico e elaborado e totalmente dedicado a analisar os estados de alma de uma mulher fora dos padrões expectáveis na sociedade portuguesa dos anos 1950. 

15 de Agosto de 2025

“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro

06.08.25, Almerinda

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“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024

 Este foi um dos livros que a minha amiga Guilhermina Gomes generosamente me ofereceu, na última vez que estivemos juntas. Em boa hora. Um livro extraordinário que devorei,  que interrompi para ouvir Milton Nascimento, ou me levou a anotar “Olho mais Azul” de Toni Morrison para ir buscar à Biblioteca Municipal. Um livro que me ensinou muito e me pôs a reflectir sobre muita da temática do racismo vivido por mulheres, pela primeira vez.

“Cartas para minha Avó” é tão actual; devia ser lido por todas as mulheres e … homens. É um livro autobiográfico em que, através de cartas que escreve à avó Antónia que teve sete filhos e faleceu aos 68 anos, nos fala de assuntos que nunca teve oportunidade de falar com a avó enquanto ela foi viva. É de racismo que fala, mas também de desigualdade de género, na pele de uma mulher negra. Djamila Ribeiro é das escritoras brasileiras mais lidas na actualidade, é filósofa, ocupa desde 2022 o lugar 28 da Academia Paulista das Letras, anteriormente ocupado pela escritora Lygia Fagundes Telles e a BBC incluiu-a na lista das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.

Logo no início do livro, dirigindo-se à avó, a narradora escreve: “Como você lidava com o racismo? Será que pensava sobre isso ou foi forçada a naturalizá-lo? Eu não tive tempo de lhe perguntar nada disso. Quais eram seus sonhos, seus medos?” (pág. 15) “Que saudade de suas mãos lindas, mãos com história, com calos, mas macias ao acarinhar e trançar meus cabelos.” (pág. 13) Lamenta não ter conhecido a avó e a mãe, Erani Benedita, como mulheres, para além dos seus papéis de avó e mãe. Recorda que não foi fácil ser uma menina preta e lembra que a rigidez e dureza da mãe ao educá-la e à irmã eram no sentido de que não podiam errar. Errar era um privilégio de brancos. “Estou-te preparando para a vida” (pág. 26), mas essa educação e todos os castigos que lhe infligia foram negativos na sua auto-estima, a acrescentar a todo um sistema de segregação social que vivenciou na escola e através dos modelos difundidos nos meios de comunicação social. Aquilo que não conseguiu compreender quando criança, percebeu mais tarde quando teve noção de que a “mãe foi um espírito livre enjaulado” “corroída” pela tristeza e invisibilidade. (pág. 61). “Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.” (pág. 61) Também só mais tarde, a narradora conseguiu perceber a diferença entre o Joaquim pai que sempre lutou por que as filhas fossem independentes e o Joaquim marido que no final da vida confessou à filha, chorando “Eu estou sofrendo porque fiz sua mãe sofrer.” (pág. 82)

A bagagem que a educação da avó e da mãe lhe deu permitiu-lhe recusar relações em que não se sentiu respeitada, relações controladoras e possessivas em que ela apenas era vista como instrumento de prazer. Mesmo que elas nunca tivessem sabido o que era o feminismo, quer a avó quer a mãe sempre lhe mostraram a importância de se defender. E isso foi determinante para ter com a filha Thulane, (que significa “a pacífica” ) uma relação diferente, aberta a falar sobre sexo e menstruação, por exemplo, aquilo a que ela chama quebrar o ciclo do não-dito.

Nestas cartas à avó, a narradora fala da sua experiência de maternidade, da ambivalência tão comum e tão pouco compreendida de sentimentos de felicidade e incompletude e da sua decisão de continuar a estudar, da grande luta pessoal para uma conciliação tão difícil. “Eu amava ser mãe, mas odiava o papel que a maternidade me impunha” (pág. 156); era “a abdicação da nossa existência como sujeito” (pág. 157).

É também com orgulho que conta à avó o que fez para quebrar o ciclo de pobreza e exclusão que tinha sido a vida da mãe e da avó. Trabalha e vai estudar Filosofia, mas “Eu me deparei com um curso branco, masculino e eurocêntrico” (pág. 168), mas a epifania deu-se quando conheceu pesquisadoras negras e teve contacto com feministas da América Latina que lhe alargaram a sua apreensão sobre o feminismo. Foi convidada para exercer cargos na área dos direitos humanos aquando da gestão de Fernando Haddad, teve a possibilidade de entrevistar Marielle Franco e assinala o papel que a leitura de grandes escritoras como Toni Morrison, Maya Angelou ou Alice Walker tiveram no seu percurso e no seu desenvolvimento como mulher e pensadora.

E finalmente, a história da avó e o seu exemplo não são alheios à sua escolha por uma espiritualidade profunda, por uma vivência simples e de grande comunhão com a filha Thulane.

Volto à ideia inicial. Um livro essencial para quem quer ter uma visão abrangente do feminismo, do racismo e da luta pela superação e combate ao racismo e à desigualdade,

5 de Julho de 2025