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Lendo e escrevendo

Lendo e escrevendo

O Regresso de Júlia Mann a Paraty. Teolinda Gersão

30.07.25, Almerinda

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“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” – Teolinda Gersão, 2021

Este romance de Teolinda Gersão, escritora que leio pela primeira vez, é constituído por três partes distintas, mas que se interligam. É claro o profundo conhecimento da cultura alemã por parte da autora e que está bem patente neste livro.

Na primeira parte, Freud com 79 anos é obrigado a exilar-se em Londres, depois de ter vivido cinco décadas em Viena. Estamos em 1938 e a Áustria foi anexada pelos nazis. Freud analisa a loucura em que a Alemanha se transformou “A Alemanha regrediu milénios, e mergulhou numa barbárie a que poderíamos chamar pré-histórica. Parecia impossível, mas aconteceu” (p. 8) e de seguida faz uma longa consideração sobre Thomas Mann, com quem apenas esteve uma vez, embora o conheça profundamente por ter lido toda a sua obra. Sabendo da ambiguidade de Thomas Mann em se distanciar do nazismo, decide escrever-lhe uma carta como médico, analisando-o nas suas angústias, ódios, atracção por ideais destrutivos, hesitações e ambiguidades, mas ao mesmo tempo reflectindo sobre as suas próprias dúvidas que o levam a sentir má consciência e culpa. “Tal como o senhor, não sou, nem nunca fui, um homem de acção, fui um homem de pensamento, e isso parecia bastar-me. Acreditei até que podia manter-me politicamente neutro…” (p. 36) (…) “Haverá, depois dos tumultos, um recomeço, uma esperança de progresso? Retiraremos lições do que aconteceu - do que permitimos que acontecesse?” (…) “Teria sido provavelmente mais útil manifestar-me, sair à rua, publicar artigos em jornais. A minha situação de judeu colocava-me numa posição mais ameaçada do que qualquer outro, o que devia ser um incentivo para a acção, e não uma razão ou atenuante para não agir. Também eu fui responsável pelos desastres da sociedade à minha volta.” (p. 37)

A segunda parte do romance passa-se em 1930 e é Thomas Mann, que havia recebido o prémio Nobel no ano anterior, a pensar em Freud. Sobre Freud, diz Thomas Mann “… alguém muito parecido comigo, em muitos aspectos quase igual, de certo modo um duplo” (p. 41) pelo que gostaria de conversar com ele, mas como haveria sempre uma relação de desigualdade, de submissão de Thomas Mann em relação a Freud, isso ele nunca aceitaria: “Só em pé de igualdade eu falaria consigo.” (p. 48).  A sua homossexualidade, mas sobretudo a rivalidade com o irmão mais velho Heinrich foram os problemas centrais da vida de Thomas Mann. “Talvez esteja tão aterrado com as sombras em que vivo que sinto necessidade de exteriorizar o medo. Por isso escrevo, penso, imagino – e me imagino agora a falar consigo, Dr. Freud. Esta conversa é uma espécie de confissão…” (p. 75).

A última parte tem como figura central, Júlia Mann, a mãe de Thomas e Heinrich Mann. Nascida no Brasil, após a morte da mãe, o pai de Júlia decide enviar as duas filhas e os três filhos para Lübeck, para viverem com a família alemã. A morte da mãe marca o fim da infância de Júlia. O afastamento forçado da ama, a escrava Ana, a frequência de um colégio sem poder ter contacto com a irmã Maria, o corte com tudo o que tinha sido a sua vida anterior foi um choque horrível. “A vida anterior devia ser esquecida, como se não tivesse interesse nem valor. “(p. 91) “Júlia foi forçada a encaixar num mundo que não era o seu.” (p. 92) Tudo lhe foi cortado: a língua, o poder falar com a irmã em português, o contacto com a natureza, a espontaneidade. Era preciso domesticá-la, amestrá-la, reprimir os sentimentos, arranjar-lhe um casamento de conveniência. “A língua da mãe, de Ana, do seu país e da sua infância fora proibida, rasurada. Assassinada.” (p. 98) “Em Lübeck as famílias eram prisões, e a sociedade uma prisão maior, onde se encarceravam todas as famílias” (p. 82)

Júlia era bela e sensual, a sua mestiçagem tornava-a aos olhos da sociedade alemã “inferior e diferente” (p. 111), “exótica” (p. 112), e, apesar das suas qualidades artísticas “ela era perigosa para a ordem social e as famílias. A qualquer momento podia resvalar para excessos, boémia ou devassidão.” (p. 113) Mesmo os filhos mais velhos – Thomas e Heinrich – denotam nos seus livros que se envergonhavam dela e que a viam como uma mulher insatisfeita. “Não era uma mulher nem uma mãe igual às outras” (p. 113)

Apesar de lhe ter sido arrancada a infância, Júlia saiu fora do padrão que a sociedade tudo fez para lhe impor e aos cinquenta e dois anos decidiu escrever as suas memórias para os filhos e netos poderem conhecê-la e, quem sabe, compreendê-la. “Parcas em críticas, e pródigas em agradecimento e louvor a todos os que tinham feito parte da sua vida. Um relato contido, em que o não-dito só seria perceptível para ouvidos capazes de ouvir silêncios, e notas discordantes em surdina.” (p. 97)

Este romance de Teolinda Gersão é também um relato de uma época mas com contornos e preconceitos que o tornam profundamente actual: racismo, preconceitos de classe, colonialismo, escravatura, o peso da maternidade não partilhada, a insatisfação do casamento.

A morte de Júlia Mann é uma libertação que a autora conseguiu de uma forma muito bela e poética descrever. É o regresso ao que lhe foi tirado quando foi arrancada de Paraty. O reencontro com a mãe, a velha ama e a natureza.

19 de Julho de 2025

Almerinda Bento

A Outra Filha, Annie Ernaux

24.07.25, Almerinda

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“A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011

Depois de “Os Anos”, este é o segundo livro que leio de Annie Ernaux. Em todo ele encontro o estilo autobiográfico e certos detalhes que se observam em “Os Anos”, como por exemplo a referência às fotografias, embora aqui as fotografias sejam escassas. A fotografia a sépia que os pais disseram ser dela, afinal era de uma irmã que morreu dois anos antes de a narradora ter nascido. Essa morte e essa outra filha, foi algo sempre silenciado até ao dia em que a narradora ouviu uma conversa entre a mãe e uma cliente. Foi uma descoberta dolorosa para uma menina com dez anos, numas férias de Verão de 1950.

A morte da outra filha, um assunto que foi sempre silenciado pelos pais. Naturalmente, algo que foi muito penoso na vida do jovem casal e que nunca conseguiram revelar à segunda filha, tida como filha única. No entanto, numa idade avançada da mãe, diagnosticada com doença de Alzheimer e numa consulta médica, entre as respostas dadas às perguntas do médico, falou que tinha tido duas filhas.

O livro é uma carta à irmã. E embora a narradora pudesse ter questionado primas, tias e tios sobre essa irmã, a verdade é que houve sempre um pudor, uma incapacidade de transpor esse silêncio que os pais criaram. “… não interroguei… porque eu não queria saber. Preservar-te tal qual te recebi aos dez anos. Morta e pura. Um mito. (…) Antes de começar esta carta, eu sentia uma espécie de tranquilidade em relação a ti, que agora ficou pulverizada. (…) Tenho a impressão de não possuir uma linguagem para ti, para te exprimir, de só saber falar de ti em modo de negação, do constante não-ser. Tu estás fora da linguagem dos sentimentos e das emoções. Tu és a antítese da linguagem. (…) Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” (págs. 42 e 43)

Este livro tem muito a ver com vida e morte. Com família. Com silêncios. Com fantasmas. Com traumas que ficam para a vida. A autora-narradora, ainda antes de escrever esta carta à irmã sentiu necessidade de voltar à casa de infância, àquela onde ela e a irmã tinham nascido e que há muitas décadas estava na posse de outros proprietários. “Tinha uma espécie de sensação plena, feita de espanto e de contentamento obscuro por me encontrar ali, naquele exato lugar no mundo, entre aquelas paredes, perto daquela janela, por ser o olhar que contempla o quarto onde tudo começou para uma e outra, para uma e depois a outra. Onde tudo se decidiu. O quarto da vida e da morte, que estava banhado de luz naquele fim de tarde. O lugar do enigma do acaso.” (pág. 61)

Annie Ernaux é uma autora a quem apetece voltar. Diz-me tanto e está tão próxima da alma humana. Este livro foi traduzido para a nossa língua por Tânia Ganho.

24 de Junho de 2025

 

Memória de uma Epifania, Maria João Vaz

17.07.25, Almerinda

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“Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023

Conheci a Maria João Vaz numa sessão promovida pelo Bloco de Esquerda em Coimbra, no início de Março, no âmbito do II Fórum LGBTQI+. No final da sessão comprei o livro “Memória de uma Epifania” à autora, mas só agora o li, depois de ter lido “As Malditas” de Camila Sosa Villada.

Acho que André Tecedeiro consegue, no prefácio, sintetizar muito do que gostaria de aqui escrever sobre o livro: “É um livro claro, generoso e honesto. Acima de tudo, é um livro necessário” (pág. 7). E mais à frente acrescenta: “De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.” (pág. 8).

Muito diferente de “As Malditas”, este livro surge do desejo de Maria João Vaz escrever um texto para um espectáculo de teatro que falasse da sua vida e da sua realidade, ou seja, daquilo que ela conhece melhor, projecto esse que, entretanto, evoluiu para a presente autobiografia. No fundo, Maria João Vaz sentiu necessidade de partilhar a sua experiência de mulher trans numa sociedade ainda muito alheada dessa realidade. A autora é exaustiva na partilha das suas memórias desde a mais tenra idade: a vida com os pais, os irmãos e irmã, o colégio execrável que frequentou durante sete anos, as idas à Feira Popular, o fascínio da neve e das lojas de brinquedos, mas também o desconforto desde sempre entre ela e as outras pessoas, que a levava ao isolamento, buscando a solidão e o silêncio. Nunca os pais revelaram capacidade nem sensibilidade para ver que ela era diferente, nem os próprios médicos descortinaram a origem dos ataques de pânico na escola, que para ela foi um lugar de humilhação, de prepotência e de desrespeito pelos direitos das crianças. Ao longo da vida e desde criança fez inúmeras viagens com a família, as quais reconhece não conseguir desfrutar na plenitude, mas que lhe deram uma base cultural e uma visão do mundo que é muito patente em todo o livro. O gosto secreto de vestir roupas femininas, a paixão e/ou identificação com outras mulheres mais velhas gerava nela um sentimento de culpa, de que vivia uma vida de fachada, de mentira. Para além do imenso amor pelas três filhas da sua relação com uma mulher por quem se apaixonou, os animais, e sobretudo os cães e cadelas que teve ao longo da vida, foram certamente os maiores amores da sua vida. Com formação artística na área do teatro, Maria João Vaz fez teatro, telenovelas, cinema, dobragens de filmes de animação, foi música, tendo tocado trompete no Hot Club e é escultora autodidacta . Foi uma mulher dos sete instrumentos, agarrando tudo o que podia para viver e sobreviver, num mundo que muitas vezes lhe virou as costas, a usou, foi falso e hipócrita. Mas Maria João era mulher com um sentido profundo da vida e uma busca incessante do equilíbrio e do direito a ser feliz.

Até que se dá a epifania em 2018. Maria João é muito precisa e descreve todo o seu processo de descoberta e de coming out em relação à família e ao mundo. Após cinquenta anos de condicionamento pessoal e social, descobre-se e encontra o seu verdadeiro eu. Uma epifania é sempre algo de mágico, de verdadeiramente novo, de maravilhoso, mas este processo não foi sem custos e sofrimento, significou também muita solidão e confronto com algumas pessoas que considerava amigas. Maria João Vaz partilha connosco este seu processo e embora tenha ocorrido tardiamente na sua vida, volto ao prefácio de André Tecedeiro, um homem trans, e transcrevo: “Não há solidão comparável à de vivermos longe de nós”. (pág. 7)

Num tempo em que as questões de género e a comunidade trans estão sob ataque mortal por parte da direita e extrema-direita, o conhecimento da realidade e da diversidade deverão gerar empatia e a quebra de preconceitos que se baseiam sobretudo na ignorância. Maria João Vaz foi muitas vezes aos EUA, país que sempre lhe provocou enorme atracção e até vontade de ser lugar para viver, mas, a certa altura, fruto dos ventos conservadores que dali sopram, escreve que hoje já tem pouca vontade de lá voltar. Compreende-se e lamenta-se que o mundo esteja a virar-se para o conservadorismo mais abjecto.

À autora e à coragem que reflecte ao longo deste livro autobiográfico, o meu respeito e solidariedade. A luta continua!

15 de Julho de 2025

As Moscas de Outono, Irène Némirovsky

02.07.25, Almerinda

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“As Moscas de Outono” – Irène Némirovsky, 1931

Num espaço de um mês este é o segundo livro que leio desta escritora ucraniana de ascendência judia que faleceu prematuramente num campo de extermínio nazi em 1942. Como já em publicação anterior sobre “O Baile” referi, esta repetição e revelação deveram-se à escolha desta autora e do livro “As Moscas de Outono” para o encontro de Junho do Clube de Leitura de Leia Mulheres Lisboa.

Também este é um pequeno livro, muito conciso, que conta a história dos Karine que, de alguma forma, tem paralelismo com a vida de Irène Némirovsky. Trata-se de uma família abastada que tem de fugir na sequência da revolução russa, passando por Odessa, Marselha e finalmente Paris, que vive nessa altura a chegada da primeira vaga de emigrantes russos. A família Karine vive numa casa insalubre, mas, com o tempo, vai-se habituando à cidade, ao clima e à população, apesar de as condições de vida no exílio em nada se assemelharem às que deixara na Rússia. No entanto e como é apanágio de quem é forçado a exilar-se, a adaptação não é sem dor e nos diálogos dos diversos membros da família Karine perpassa o desespero, a tristeza, a saudade. “A vida, insensivelmente, organizava-se” (pág. 78), eles tinham as suas rotinas “jantavam à pressa, deitavam-se e dormiam sem um único sonho, derreados pelo afanoso dia de trabalho” (pág. 72). “Eles, (os Karine) iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas” (pág. 52).  Ao contrário, Tatiana Ivanovna que era ama da família há 51 anos, não consegue adaptar-se à mudança e vive do passado, da sua amada terra, das recordações e da saudade dum tempo que terminou.  Sobretudo, faltava-lhe a neve da sua terra distante. “A velha sorria, fechou os olhos. Tinha nascido numa zona rural, longe dos Karine, no norte da Rússia, e para ela nunca havia demasiado gelo nem demasiado vento.” (pág. 25). A incompreensão de Tatiana por atitudes da jovem Loulou “És demasiado velha, não podes compreender” (pág. 60) e até a forma como a família encarava o assassinato ainda recente de Youri “uma tristeza enregelada” (pág. 63) fazem da velha ama uma personagem singular e, quanto a mim, central nesta obra. O seu alheamento num mundo em que não se consegue integrar são a sua forma de sobreviver.

Apenas um detalhe que achei interessante. O romance começa num Natal antes da revolução, quando Youri e Cyrille partem para a guerra e Tatiana se despede deles enquanto prepara as suas malas e termina em Paris, na noite de Natal quando os Karine saem para festejar em casa de amigos deixando a velha Tatiana em casa. É um ciclo que se fecha na noite de Natal.

Este romance, com tradução do francês de Diogo Oliveira Paiva, tem belíssimas descrições de ambientes e de estados de alma e revela uma enorme capacidade da autora em analisar as pessoas, conferindo-lhes densidade e autenticidade. Tal como “O Baile”, este “As Moscas de Outono” não mede o seu valor pela quantidade das páginas. Muito bom.

1 de Julho de 2025