O Regresso de Júlia Mann a Paraty. Teolinda Gersão

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” – Teolinda Gersão, 2021
Este romance de Teolinda Gersão, escritora que leio pela primeira vez, é constituído por três partes distintas, mas que se interligam. É claro o profundo conhecimento da cultura alemã por parte da autora e que está bem patente neste livro.
Na primeira parte, Freud com 79 anos é obrigado a exilar-se em Londres, depois de ter vivido cinco décadas em Viena. Estamos em 1938 e a Áustria foi anexada pelos nazis. Freud analisa a loucura em que a Alemanha se transformou “A Alemanha regrediu milénios, e mergulhou numa barbárie a que poderíamos chamar pré-histórica. Parecia impossível, mas aconteceu” (p. 8) e de seguida faz uma longa consideração sobre Thomas Mann, com quem apenas esteve uma vez, embora o conheça profundamente por ter lido toda a sua obra. Sabendo da ambiguidade de Thomas Mann em se distanciar do nazismo, decide escrever-lhe uma carta como médico, analisando-o nas suas angústias, ódios, atracção por ideais destrutivos, hesitações e ambiguidades, mas ao mesmo tempo reflectindo sobre as suas próprias dúvidas que o levam a sentir má consciência e culpa. “Tal como o senhor, não sou, nem nunca fui, um homem de acção, fui um homem de pensamento, e isso parecia bastar-me. Acreditei até que podia manter-me politicamente neutro…” (p. 36) (…) “Haverá, depois dos tumultos, um recomeço, uma esperança de progresso? Retiraremos lições do que aconteceu - do que permitimos que acontecesse?” (…) “Teria sido provavelmente mais útil manifestar-me, sair à rua, publicar artigos em jornais. A minha situação de judeu colocava-me numa posição mais ameaçada do que qualquer outro, o que devia ser um incentivo para a acção, e não uma razão ou atenuante para não agir. Também eu fui responsável pelos desastres da sociedade à minha volta.” (p. 37)
A segunda parte do romance passa-se em 1930 e é Thomas Mann, que havia recebido o prémio Nobel no ano anterior, a pensar em Freud. Sobre Freud, diz Thomas Mann “… alguém muito parecido comigo, em muitos aspectos quase igual, de certo modo um duplo” (p. 41) pelo que gostaria de conversar com ele, mas como haveria sempre uma relação de desigualdade, de submissão de Thomas Mann em relação a Freud, isso ele nunca aceitaria: “Só em pé de igualdade eu falaria consigo.” (p. 48). A sua homossexualidade, mas sobretudo a rivalidade com o irmão mais velho Heinrich foram os problemas centrais da vida de Thomas Mann. “Talvez esteja tão aterrado com as sombras em que vivo que sinto necessidade de exteriorizar o medo. Por isso escrevo, penso, imagino – e me imagino agora a falar consigo, Dr. Freud. Esta conversa é uma espécie de confissão…” (p. 75).
A última parte tem como figura central, Júlia Mann, a mãe de Thomas e Heinrich Mann. Nascida no Brasil, após a morte da mãe, o pai de Júlia decide enviar as duas filhas e os três filhos para Lübeck, para viverem com a família alemã. A morte da mãe marca o fim da infância de Júlia. O afastamento forçado da ama, a escrava Ana, a frequência de um colégio sem poder ter contacto com a irmã Maria, o corte com tudo o que tinha sido a sua vida anterior foi um choque horrível. “A vida anterior devia ser esquecida, como se não tivesse interesse nem valor. “(p. 91) “Júlia foi forçada a encaixar num mundo que não era o seu.” (p. 92) Tudo lhe foi cortado: a língua, o poder falar com a irmã em português, o contacto com a natureza, a espontaneidade. Era preciso domesticá-la, amestrá-la, reprimir os sentimentos, arranjar-lhe um casamento de conveniência. “A língua da mãe, de Ana, do seu país e da sua infância fora proibida, rasurada. Assassinada.” (p. 98) “Em Lübeck as famílias eram prisões, e a sociedade uma prisão maior, onde se encarceravam todas as famílias” (p. 82)
Júlia era bela e sensual, a sua mestiçagem tornava-a aos olhos da sociedade alemã “inferior e diferente” (p. 111), “exótica” (p. 112), e, apesar das suas qualidades artísticas “ela era perigosa para a ordem social e as famílias. A qualquer momento podia resvalar para excessos, boémia ou devassidão.” (p. 113) Mesmo os filhos mais velhos – Thomas e Heinrich – denotam nos seus livros que se envergonhavam dela e que a viam como uma mulher insatisfeita. “Não era uma mulher nem uma mãe igual às outras” (p. 113)
Apesar de lhe ter sido arrancada a infância, Júlia saiu fora do padrão que a sociedade tudo fez para lhe impor e aos cinquenta e dois anos decidiu escrever as suas memórias para os filhos e netos poderem conhecê-la e, quem sabe, compreendê-la. “Parcas em críticas, e pródigas em agradecimento e louvor a todos os que tinham feito parte da sua vida. Um relato contido, em que o não-dito só seria perceptível para ouvidos capazes de ouvir silêncios, e notas discordantes em surdina.” (p. 97)
Este romance de Teolinda Gersão é também um relato de uma época mas com contornos e preconceitos que o tornam profundamente actual: racismo, preconceitos de classe, colonialismo, escravatura, o peso da maternidade não partilhada, a insatisfação do casamento.
A morte de Júlia Mann é uma libertação que a autora conseguiu de uma forma muito bela e poética descrever. É o regresso ao que lhe foi tirado quando foi arrancada de Paraty. O reencontro com a mãe, a velha ama e a natureza.
19 de Julho de 2025
Almerinda Bento


